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LIBRARY OF PRINCtIUN 

NOV 1 0 2004 

■ - 

THEOLOGICAL SEMINARY 


PER BR7 .U54 


Zn i t a s . 


Digitized by the Internet Archive 
in 2016 


https://archive.org/details/unitas2010inst 




PREÇO: 10,00 

ANO 20 — N.° 10 
OUTUBRO — 1958 


Caráter 

2 

Miguel Rizzo 

Notas e Comentários 

7 

J. Goulart 

O Decálogo 

11 

Lauro Bretones 

A Bíblia e a Criança 

20 

G. Campbell Morgan 

Reafirmação do pacifismo 



cristão 

26 

Roland Bainton 

Facetas da vida 

35 

M. R. 

Lutas da alma crente 

38 

Odayr Olivetti 

Não permita Deus 

42 

W. Gordon Robinson 

As gordas e as magras 

46 

Maria Amélia Rizzo 

À margem da história 

49 

M. R. 

O ensino da religião 

53 

R. 


j ''vo . i IrfJiLÜ iOdHi 





,*>oooooooooooooooooooooooo< 


Curso de Religião 


POR CO RR ES PO XI) PXC IA 

0 Instituto de Cultura Religiosa organizou um Curso 
dessa natureza (jue será ministrado em dois anos assim 
divididos : 

C U H S O B Á S I C O 

ENSINO DE JESUS EXPERIÊNCIA RELIGIOSA 
AÇÃO SOCIAL DOS FIÉIS 

C U R S O S U P E R 1 O R 

DIRETRIZES DE JESUS DETURPAÇÕES DO CRISTIANISMO 
REALIDADES ESPIRITUAIS 

As lições começam a ser distribuídas em março. 

0 Instituto espera que as pessoas que se inscreverem no 
curso se comprometam: 

1 a estudar muito bem as lições; 

2 a responder os questionários que acompanham 
cada uma delas; 

3 a aplicarem, na divulgação do Cristianismo, os 
conhecimentos que adquirirem por meio desse 


As matrículas estarão abertas de l.° de novembro a lã de 
fevereiro e as lições serão distribuídas a partir do mês 
de março. 

Quem se dispuser a assumir os compromissos acima, 
poderá inscrever-se logo, dirigindo-se ao Instituto de Cultura $ 
Religiosa, Caixa postal 7.203, São Paulo. 

&0!o.o.oooooooooooooooooooooooooooooooooooooooaoo.oao , 's 


>oooooooooo< 


• Verifique se a sua 

ÚNITAS 

assinatura está vencida ou 
por vencer pròximamente. 

õrgâo Oficial do Instituto de Cultura Religiosa 

Mande-nos logo a im- 
portância de Crf 100,00 
para que lbe possamos 
continuar a enviar a re- 

Diretor — MIGUEL RIZZO JR. 
Redator — LAURO BRETONES 

vista regularmente. 

Colaboradores permanentes: 


Jorge Goulart, Adauto Araújo Dourado, W. J. 

• Ao enviar qualquer 
importância, faça-o em 
nome do Instituto de 
Cultura Religiosa, e não 

Goldsmlth, Camilo Ashcar, Oscar Arruda, Alceu 
Maynard Araújo, Odilon Nogueira de Matos, 
Mário Barreto Franca, José Borges dos Santos Jr. e 
Samuel Figueira 

em nome pessoal de qual- 
quer dos diretores. 

EXPEDIENTE 


O Ret>. Miguel Rizxo Júnior, Diretor desta 

• Envie-nos suas im- 

revista, atenderá sòmente às térças e quln- 

pressões sôbre a revista. 

tas-feiras das 14 às 17 horas, à Rua Barão de 

Elas são de grande ajuda. 
Estamos procurando fazer 
o melhor. Mas gostaríamos 

Tatui, 528. 

de saber como nossos lei- 
tores estão vendo a sua 
revista. Escreva-nos. 

Assinatura anual Cr$ 100,00 

Número avulso ” 10,00 


Sócios do Instituto: 


Mensalidade — 

• Pedimos também seu 
auxílio para o aumento 

Interior Cr$ 20,00 

S. Paulo, Rio, Recife . . ” 25,00 

do número de leitores da 
revista. Procure oferecer a 
um amigo uma assinatura 
anual a titulo de 
experiência. 

Enderêço : 

Rua Barão de Tatui n.° 528 — Caixa 
Postal 7.203 — Tel. 51-7499 


SAO PAULO — Brasil 


C AR AT ER .. 


Miguel Rizzo 


O “ Estado de São Paulo”, 
grande matutino que se edi- 
ta nesta Capital, na edição de 
10 de junho de 1930, contou 
os fatos que vamos aqui re- 
sumir. Estava A nat o l e 
F rance em uma roda de 
amigos, quando alguém dêle 
se aproximou, com um papel 
na mão, pedindo-lhe que o 
assinasse. Lendo o que ali 
estava, o famoso romancista 
declarou : “Mas não è 
possível. Trata-se de um 
requerimento ao rei da 
Espanha; estou de relações 
cortadas com êle, não posso 
fazer-lhe tal pedido”. Pare- 
ciam terminantes essas de- 
clarações. Mas o indivíduo 
insiste e jxtssa a pena ao 
escritor. Esse afixou logo a 
assinatura no documento. 
Alguém, que estava perlo, 
estranhou-lhe a atitude, e 


comentou a incongruência 
que ela representava. Então 
Anatole, com tôda naturali- 
dade, afirmou: “Vocês todos 
sabem que eu não tenho 
caráter”. 

Os admiradores do talento 
do grande romancista têm 
procurado explicar, de vá- 
rias maneiras, essa triste 
ocorrência. Tudo, porém, 
é inútil. .As pessoas que 
a conhecem e não ignoram 
que, realmente, há muitos 
lances na biografia de Ana- 
tole suficientes para justi- 
ficar sua declaração — feita 
sem ressalva alguma — ao 
lerem seus livros, jamais sen- 
tem por êle aquela admi- 
ração irrestrita que seu ta- 
lento literário poderia ter 
produzido nas almas bem 
formadas, se vivesse unido 
às excelências da vida moral. 


3 


Outubro tle 19'3 

O caso é sintomático e dei- 
xa patente a importância do 
caráter no conjunto dos au- 
tores humanos. É superior à 
fortuna, pois, onde êle não 
existe, ela se transforma 
em fòrça propulsora de cor- 
rupção e degenerescência. É 
mais belo do que o talento, 
pois, sem o seu concurso, as 
inteligências mais brilhantes 
se deslustram a serviço de 
causas injustas e nefastas. É 
mais desejável do que as 
altas relações sociais, por- 
que, sem a sua inspiração, 
elas, que, deviam ser as esti- 
muladoras da virtude, trans- 
formam-se em campo assaz 
propício para a dissolução 
dos lares e de outros valores 
reais da vida. 

Contrastemos Anatole com 
Walter Scott. Chegara êsse 
aos cinquenta e cinco anos e 
já alcançara triunfos lite- 
rários magníficos, quando 
faliu a firma editora, de que 
era sócio. A falência foi ine- 
vitável, mas havia, ao alcan- 
ce de Walter Scott, recursos 
legais e fáceis para fugir ás 
responsabilidades financei- 
ras que assumira. No entan- 
to, resolveu êle pagar a todos 
os credores até ao último 
centavo. 0 dinheiro perdido 
lhes pertencia. Tôdas as for- 
mas de concordatas foram 
repelidas pela dignidade se- 
rena de Walter Scott • No 
próprio dia em que soube da 


falência, atirou-se à lula fe- 
bril. Simplificou a vida, ven- 
deu o que possuiu e consa- 
grou-se heroicamente ao tra- 
balho! No fim de quatro 
anos, já liquidara uma dívi- 
da correspondente a setecen- 
tos mil cruzeiros. No afã do 
combate, perdeu a saúde. 
Alquebrado, e no meio de 
cruciantes sofrimentos, con- 
tinuou a tarefa até realizá-la 
por completo. No dia em que 
faleceu, dirigiu-se a um ami- 
go nestes termos: “Se bom, 
sê virtuoso; quando estiveres 
a partir, como, eu, será isso o 
teu grande consolo!” 

Aí temos dois escritores. 
Ambos notáveis. Um alia ao 
gênio fascinante a retidão 
moral. Seu nome, dando bri- 
lho à literatura de um país, 
enriquece também as tra- 
dições de nobreza da raça 
humana. O outro possui ta- 
lento — não há negar — mas 
a vida íntima se lhe desdobra 
em atos que a maculam e po- 
dem estimular nos espíritos 
fracos a prática do mal. Qual 
dos dois deverá servir de 
exemplo à geração atual, 
que, no fragor de lutas fa- 
tídicas, ainda sonha com a 
reconstrução do mundo? Não 
pode haver duas respostas 
para essa pergunta. 

Feitas estas apreciações, 
indaguemos, agora, queds são 
os elementos essenciais para 
a organização do caráter. 


4 — 


ÚNIT AS 


Dois, especialmenle: prin- 
cípios exatos; e estímulos 
capazes de transformá-los 
em orientadores definitivos 
da vida. 

Tratemos, primeiro, dos 
princípios. São èles as nor- 
mas básicas que dirigem a 
conduta individual. Há mui- 
tas pessoas que falham mo- 
ralmente, não porque lhes 
falte sinceridade e até esfor- 
ço, mas sim porque tentam 
plasmar o seu próprio ca- 
ráter em moldes falsos, re- 
cebidos, ou pela educação do 
lar, ou em leituras mal diri- 
gidas, ou tomadas a esmo do 
ambiente em que vivem. 

Um dos maiores crimes 
praticados contra a economia 
popular nos últimos tempos, 
teve como protagonista um 
indivíduo de inteligência no- 
tável, que hoje cumpre pena 
em uma das penitenciárias 
de Portugal. Descreveu êle 
sua agitada aventura em 
dois alentados volumes. Lo- 
go no começo, expõe as di- 
retrizes que, muito jovem 
ainda, escolhera para sua 
conduta. Fascinado por cer- 
ta literatura dissolvente da 
época, convencera-se de que 
só valem, perante o público, 
os homens que alcancem 
grande fortuna. Se êsse é o 
valor supremo, concluiu êle, 
os meios para consegui-lo 
serão secundários. O que. era 
o seu ponto-de-vista, nesse 


particular, êle o expõe com 
grande veemência. Mas o eli- 
tor, de canil er bem formado, 
lendo tal exposição, de prin- 
cípios falsos, prevê logo a 
catástrofe moral que êles 
determinarão. Quem os acei- 
ta há de, fatalmente, enca- 
minhar-se para a reclusão 
penal. 

Kant, em seu livro “Me- 
tafísica dos costumes” , apre- 
senta um critério fácil para 
verificar a excelência ou as 
falhas dos princípios de con- 
duta. Resume-se nesta per- 
gunta: “Que é que aconte- 
cerá, se todos agirem como 
eu estou agindo?” Exempli- 
fiquemos melhor. Um ho- 
mem resolve adotar a men- 
tira nas suas transações co- 
merciais. Para apreciar o va- 
lor dêsse princípio, êle ima- 
ginará o que seria da socie- 
dade, se todos o imitassem. 

O critério é, de fato, mui- 
to eficaz. Mas acontece que 
o egoísmo humano não cos- 
tuma perder tempo com essas 
cogitações. Êle indaga, ape- 
nas, quais os métodos que 
lhe dão lucros imediatos. O 
que vai acontecer aos outros, 
como resultado fatal de suas 
ações, é coisa de somenos 
importância. 

Um caso típico. Celebri- 
zou-se, em nosso meio, não 
faz muito tempo, um artista 
teatral, pela hilariedade que 
costumava produzir n o s 


Outubro de 1958 


5 


auditórios. Um jornal, 
acusando-o, afirmou que 
esse humorista jamais con- 
sentia que sua esposa e sua 
filha fossem ao teatro, quan- 
do êle representava. Não 
queria corrompê-las com 
suas anedotas, mas pouco sc 
lhe dava que, por meio de 
seu humorismo envenenado, 
outras famílias se perver- 
tessem. Fora dos palcos, 
onde representam as co- 
médias, há muita gente que 
põe em prática em outras 
atividades da vida, métodos 
tão condenáveis como os do 
infeliz ator. 

A construção de um ca- 
ráter sólido, repitamos, de- 
pende de vários fatores. 

Um dêles é o hábito de ler 
bons livros. É muito fácil de 
perceber como pode a leitura 
promover o desenvolvimento 
dos homens. Imaginemos, 
por exemplo, um médico 
que, depois de formado, se 
atirasse exclusivamente á 
clínica, deixando de lado os 
livros. Que é que lhe acon- 
tecerá? A ciência médica 
vai-se desenvolvendo todos 
os anos, impelida por pes- 
quisas feitas em vários cen- 
tros científicos do mundo. 
Ora, quem não acompanhar 
por meio de leituras metó- 
dicas êsse evolver da ciência, 
dentro de alguns anos será 
um retrógrado. O que acon- 
tece com referência à me- 


dicina se verifica igualmente 
em outras ciências. Quem 
acompanha, por meio de lei- 
tura adequada, a evolução de 
qualquer uma delas progride 
incomparável mente melhor 
do que aqueles que não culti- 
vam o hábito de ler. Mas não 
é só nas regiões da ciência 
que tal fenômeno se verifica. 

Para a formação de estilo, 
os grandes mestres de com- 
posição literária recomen- 
dam que se leiam os grandes 
autores, estudando atenta- 
mente a maneira pela qual 
expressaram suas idéias. É 
inegável que êsse exercício 
tenha efeitos positivos. Uma 
vez perguntaram a Coelho 
Neto como foi que conse- 
guiu o riquíssimo vocabu- 
lário com que jogava nos 
seus escritos. A resposta foi 
esta: “Lendo Camilo”. Basta 
êsse fato para que se veja 
que a leitura tem realmente 
efeitos marcantes sóbre a 
mente. 

Mas, como não estamos 
aqui tratando especificamen- 
te de evolução científica, 
nem da literária, analisemos 
os efeitos que as leituras po- 
dem ter no aperfeiçoamento 
moral. 

Sem dúvida alguma, elas, 
de certo momento, represen- 
tam um tônico eficaz para as 
vontades combalidas. Eis um 
fato que torna êsse fenômeno 
evidente: “Houve uma épo- 


G — 


ÚNITAS 


ca na vida de Pasteur em que 
èle se encontrava preocupa- 
díssimo em salvar a indús- 
tria do seu país, ameaçada 
por uma praqa que devasta- 
va os bichos da seda. Dese- 
jando debelá-la, aquele sábio 
entreqou-se a pesquisas qua- 
se que intermináveis. Em 
dado momento, começou èle 
a vislumbrar a causa do mal 
que queria combater. Fêz 
experiências, cujos resulta- 
dos pareciam satisfatórios. 
A vitória — que seria tam- 
bém a da indústria do seu 
país — eslava prestes a ser 
alcançada. 

M a s , foi precisamente 
nessa época que o qrande 
cientista tombou vítima de 
uma hemorragia cerebral. 
Quase morreu. Conseguiu, 
porém, voltar ao trabalho, 
mas estava paralítico de um 
lado. Nunca mais conseguiu 
corrigir êsse defeito. Deseja- 
va ardentemente prosseguir 
nas suas pesquisas, mas, per- 
cebendo que as forças físicas 
lhe faltavam, passou por 
uma crise angustiosa. Tinha 
a mente cheia de planos que 
lhe pareciam viáveis. Via o 
caminho aberto para reali- 


zá-los mas faltava-lhes o 
essencial — a saúde. 

Como era natural, come- 
çou, então, a abater-se e só 
não se entregou, vencido, ao 
espectro do desalento que o 
ameaçava, porque teve a 
oportunidade de ler, nessa 
época, o livro de Smiles, que 
se intitula: “ Ajuda-te a ti 
mesmo”. O impulso que re- 
cebeu da leitura dessa obra, 
segundo êle mesmo o afirma, 
o levou a trabalhar energica- 
mente, apesar da debilidade 
orgânica que o martirizava. 

Dêsse modo, um só livro 
contribuiu não só para reer- 
guer o ânimo de um cientis- 
ta, como também para sus- 
tentar a marcha da ciência, 
numa hora em que ela ia des- 
falecendo. Não é êsse um re- 
sultado magnífico ? O pró- 
prio inglês que escreveu o 
livro, provàvelmente, nunca 
suspeitou que essa obra, 
que é de caráter moral, ti- 
vesse efeitos tão decisivos 
na evolução das pesquisas 
científicas. 

Note-se. que êsse caso é 
apenas um entre milhares, 
em que a leitura de um 
livro realizou prodígios se- 
melhantes. 


J. Goulart 


Notas 

e 

Comentários 


A CRISE BRASILEIRA E A SOCIOLOGIA 

Um jornalista de São Paulo, comentando a crise brasileira, 
principalmente no terreno politico, onde se têm registado as mais de- 
ploráveis transações, num desrespeito gritante a todos os princípios 
da moral e da dignidade humana, lembra a conveniência de se 
encarregar uma comissão de sociólogos eminentes, de descobrir as 
causas desta lamentável decadência. 

A lembrança, além de parecer ingênua, olvida todos os esforços 
já realizados neste sentido. De fato os sociólogos já andaram pelos 
“mucâmbos e sobrados”, pelas “casas velhas e senzalas”, já per- 
correram todos os terreiros, já investigaram as nossas origens 
étnicas, já consideraram os elementos novos que penetraram na 
velha massa, e nem deixaram de incluir o nosso clima tropical e 
tôdas as influências geográficas que pudessem, de alguma maneira, 
influir nos nossos costumes, na nossa religiosidade ou na falta de 
forças morais e espirituais que orientassem a nossa vida. 

O mal já está, de há muito, diagnosticado. O fator único, se há 
fator único, não é o econômico, como poderia supôr um comunista, 
mas o fator moral, ao seu aspecto negativo. Entretanto, não adianta 
diagnosticar. O de que precisamos é de u’a mudança de mentalidade, 
aquilo que, na teologia, nós chamaríamos de regeneração. O que pre- 
valece, num meio que se diz religioso, porque todos se chamam 
cristãos é um ateismo prático, um procedimento inteiramente di- 
vorciado de qualquer convicção propriamente religiosa. 


8 — 


ÚNITAS 


Quer-nos parecer, porém, que não devemos exagerar a si- 
tuação. Que vivemos uma hora trevosa, em todos os setores, é certo. 
Até no seio das famílias. Um comentarista dizia, outro dia, que, no 
seu entender, existem mais pais transviados do que filhos trans- 
viados. . . Todavia, se considerarmos bem a matéria, encontraremos 
sempre um “restante”, uns poucos mil que “não se dobraram diante 
de Baal”. Êste elemento básico servirá de apoio para início de uma 
campanha, de uma renovação, de uma evangelização que desperte as 
consciências. Ainda há quem não venda o seu voto; ainda se encon- 
tram modestos servidores, como aquele varredor que entregou à 
polícia os setenta mil cruzeiros que encontrou no lixo. Ainda há 
gente virtuosa e modesta que esconde as suas nobres ações. Uma 
coisa, porém, é necessária: que os discípulos de Cristo se conduzam 
com firmeza e com fé. 

oüo — - — — 


DO PARTIDO À CLASSE 

Tristão de Ataide, em dois artigos, na “Fôlha da Manhã”, faz 
um interessante estudo acerca da transformação que se foi operando 
na Rússia, pela qual o Partido Comunista acabou transformando-se 
em uma classe privilegiada, uma nova burocracia, que, por sua vez. 
degenera num personalismo perigoso gerador dos temores que têm 
resultado nos mais violentos expurgos. 

0 prestigioso escritor está, nos referidos artigos, comentando o 
livro que tanta impressão tem causado em todo o mundo, devido ao 
heroísmo e desassombro de Milovan Djilas, o comunista teórico que 
conseguiu passar da prisão para o mundo inteiro o seu novo con- 
ceito da revolução bolchevista. 

Diz êle: “Em contraste com as antigas revoluções, a comunista, 
feita em nome da extinção das classes, resultou na mais completa 
autoridade de uma única e nova classe” (M. Djilas — A nova classe, 
pág. 60). “Essa nova classe — a burocracia ou, mais exatamente, a 
burocracia política — tem tôdas as características das anteriores, 
acrescida de algumas outras novas e próprias” (pág. 62). 

Tristão de Ataide traça muito bem o processo na- 
tural da evolução de uma sociedade primitiva: 

“Sim, porque tôda sociedade é uma explicitação 
de instituições virtuais. Uma sociedade primitiva é 
aquela que possui as suas instituições fundamentais, 
isto é, a Família, a Escola, a Empresa, o Estado e a 


Outubro de 1958 


— 9 


Igreja — em forma de semente, concentradas numa 
família ou na tribo. A civilização outra não é senão a 
explicitação dessas instituições implícita ou invisivel- 
mente contidas na indistinção empírica de um grupo 
primitivo. A medida que uma sociedade evolui, essas 
instituições vão passando do estado virtual ao estado 
real e vão se concretizando. Vão tomando corpo. Vão 
se tornando autonomas. Uma sociedade é tanto mais 
civilizada quanto mais autonoma (não soberana) se 
torna cada uma dessas instituições. Numa sociedade ci- 
vilizada a Família é estável, a Empresa é livre, a Escola 
é autonoma, o Estado é um poder relativo com direitos 
próprios mas não absolutos, a Igreja, é independente. 

Numa sociedade bárbara a família é frouxa, a empresa 
não existe, a escola se confunde com a família ou com a 
tribo, o Estado é absoluto ou se reduz também à família 
ou a um chefe individual, a igreja, como coletividade 
de fiéis, é inexistente. A passagem da indistinção insti- 
tucional à eclosão das cinco instituições fundamentais 
da sociedade, com a consciência crescente dos seus di- 
reitos próprios e dos seus deveres para com o bem 
comum, é que constitui o fito de ouro da civilização. 

Ora, tôdas as vêzes que se processa uma 
hipertrofia de um desses grupos e a atrofia dos demais, 
e portanto desaparece ou se enfraquece a pluralidade 
dos poderes, ocorre o que acima chamamos de reversão 
às oripens. A sociedade involui.” 

Foi justamente o que se deu na Rússia. 0 esmagamento de 
todos os direitos, a absorpção pela suposta coletividade de tôdas as 
instituições básicas de uma sociedade evoluída e culta, o surgimento 
de uma burocracia onipotente, e, finalmente, a encarnação num chefe 
sobrevivente aos outros de todos os poderes e de tôda a iluminação 
e clarividência. 

O fato é impressionante e desafia o estudo e as interpretações 
dos estudiosos. Entretanto não é novo. Paul Blanchard, nos seus 
livros sôbre a liberdade e o absolutismo, em face das instituições, 
demonstra com segurança de argumentos e de fatos, que a hierarquia 
romana repete o fenômeno do comunismo, ou, melhor, o comunismo é 
uma reprise do catolicismo romano. 

Pode-se admitir que o sistema romanista tem sofrido uma 
alteração no sentido democrático, à custa das vicissitudes por que 
tem passado às mãos do despotismo comunista na Rússia e nos seus 
satélites. £ verdade que, onde ela, a Igreja Romana, exerce poder 




10 — ÍINITAS 

absoluto, o fenômeno se repete. Todavia há esperança de uma 
transformação para melhor. 

Neste terreno Tristão de Ataide não entra, porque, apesar de 
católico liberal, a sua paixão pelo papado, não lhe permite uma 
crítica mais imparcial. 

oOo 


CONCEITOS DA VIDA 

No capitulo treze do livro de Gênesis, encontramos uma ilus- 
tração muito viva acerca de dois conceitos diferentes da vida — um 
materialista e outro espiritualista. É quando Abrão e Ló regressam da 
perigosa aventura do Egito. Vinham ambos ricos e a riqueza pro- 
move a separação até mesmo entre os mais intimos. Foi quando 
Abrão, num gesto de absoluto desprendimento e de confiança cm 
Deus, ofereceu ao sobrinho a escolha: “Se escolheres a direita eu 
irei para a esquerda; e, se a esquerda, irei para a direita”. Ló 
estendeu a vista para as campinas que circundavam o Mar Morto e. 
movido pela cobiça, não teve outras considerações. Não se lembrou 
de que devia tudo a Abrão que o trouxera de Haran como um filho, 
que o instruira e iniciara na vida, que era por direito natural o 
chefe e senhor do clan. Só pensou nas vantagens econômicas, ma- 
teriais, interesseiras. Mas acrescenta a passagem: “Entretanto os 
habitantes daquelas terras eram excessivamente maus”. Não foram 
poucos os riscos que Ló correu, desde ali, tanto do ponto de vista 
moral, como do ponto de vista de sua segurança pessoal. 

Abrão, após seu rasgo de nobreza e de fé, recebeu o conforto 
de Deus e a renovação das promessas já dadas. Nada lhe faltou 
apesar do prejuízo aparente. É melhor viver os princípios que re- 
gem a vida espiritual. 


L.WIU) Hiiktonks 


0 DECÁLOGO 


“ Destes dois mandamentos depende a Lei e os Profetas” (Mat. 22:10p 

O gênio hebreu antigo legou ao mundo o mais notável código 
de conduta religiosa, moral e social. Xo gênero, èle é incomparável , 
a despeito das semelhanças que èle guarda com o chamado código do 
rei Hamurabi. Essas semelhanças, longe de desmerecer o valor do 
Decálogo, fazem dêle um documento humano histórico inegável e 
autêntico. Mas não é só. 0 Decálogo ultrapassa o Código de Hamurabi : 
êste se tornou obsoleto e aquele mantém hoje uma impressionante 
atualidade, como veremos. Hebreu na origem, é êle hoje um pa- 
trimônio da humanidade. Seus postulados são de alcance universal. 
Xêle não se encontram traços de preconceito nacional do povo 
hebreu, nem peculiaridades raciais. 

Que consequências determinaria a aplicação do Decálogo á 
vida do homem comum e das nações? Os que o examinam super- 
ficialmente e pretendem que êle seja apenas um documento religioso, 
não chegam, a perceber seu alcance. A muitos parece êle antiquado e 
simples de mais para a complexidade dos nossos problemas. Con- 
tudo êle é uma Lei básica insuperável. N êle se resumem tôdas as 
leis que nós criamos e com as quais estruturamos a nossa vida social. 
Fôsse o Decálogo pôsto em prática e seriam outras as condições do 
homem e da sociedade em nosso tempo. Um consciencioso juiz 
americano declarou que “nós aprovamos 10.000 leis para nos ensi- 
narem a por em prática os 10 Mandamentos” . 0 pior é que a com- 
plexidade e o volume das nossas leis, longe de corrigir nossos males, 
nem nos ensinam a por cm prática os 10 Mandamentos. Que acon- 
teceria se o Decálogo se tornasse a Lei básica do povo brasileiro? 

Um velho escocês procurou o Ministro e comunicou-lhe o 
propósito de ir ao Monte Sinai, subir ao topo do monte, assentar-se e 
ler, solenemente, os 10 Mandamentos. Há uma coisa melhor a fazer, 
observou o Ministro. Que é?, indagou o escocês. Se eu fôsse você, 
ficaria em casa e poria em prática os 10 Mandamentos l 


12 — 


Ú N I T A S 


Os 1U Mandamentos bastariam para fazer feliz qualquer povo... se o 
povo decidisse pô-los em prática. Referindo-se aos preceitos da 
Lei divina, dizia o salmista: “Em os guardar há grande re- 
compensa” (Salmo 19:11). 

Tocamos o ponto nevrálgico do Decálogo: pôslo em prática so- 
luciona êle todos os problemas fundamentais da vida individual e 
social. O que não ocorre cm relação às leis com as quais estruturamos 
nossa vida social. Estas, ainda que cumpridas à risca, se ressentem 
de deficiências congênitas insuperáveis. Podem elas, quando muito, 
condicionar a vida social. Xão corrigem, porém, os defeitos básicos 
da natureza humana. 

Só há dois processos pelos quais se torna possível a obser- 
vância de preceitos legais. Um dêles è o processo ditatorial. Uma 
ditadura, seja facista ou comunista, pode impor ao povo a exigência 
da estrita observância da lei. Isso é fácil. Quem dispõe da força pode 
obrigar seu semelhante a enquadrar-se em determinado sistema de 
leis. Um regime comunista é só isso. Nêle, ninguém pode agir di- 
ferentemente. Sua lei não admite escolha. Ela só impõe obediência. 
Ainda que seus objetivos sejam bons, ela representa u vontade 
exclusiva do grupo dos ditadores. E essa é a razão fundamental por 
que ela nunca realiza seus fins. e acaba por degenerar-se em con- 
flito e caos. Um ditador nunca é um homem bom. file é sempre um 
bandido, um degenerado, um megalomaníaco. Xenhuma nação fun- 
dada sôbre a lei da fôrça permanece. E mais: ela não realiza o seu 
sonho, a sua utopia, por bela que seja. As ditaduras comunistas que 
hoje impõem sua lei a alguns povos vão degenerar-se em conflito, em 
caos (para elas e para nós), cm miséria e sofrimento. Vão seguir o 
caminho natural de todas as ditaduras, ou de todos os sistemas sociais 
impostos pela fôrça. Seus resultados, além de poucos, e curtos, só 
deixam uma memória negra. Tivemos, há pouco, o destino do fa- 
cismo e do nazismo. O comunismo seguirá a mesma direção. 

O segundo processo é o que vem indicado no Decálogo. Ê o 
processo divino. Xão pode ser humano porque êlc possui dinamismo 
inerente. Seus efeitos não resultam de uma obediência imposta, e 
sim de uma obediência voluntária, fi o que veremos a seguir. 


Outubro de 1958 

“Não terás outros deuses diante de mim” (Êxodo 20:3i 


— 13 


Êsse é o primeiro mandamento do Decálogo. Êle preceitua a 
exclusividade de Deus. Só há um Deus. Xão pode haver vários. Se 
admitirmos a existência de vários deuses nenhum deles terá digni- 
dade. E se nós adorarmos esses deuses também nós não teremos 
dignidade. Um homem que divide sua lealdade com vários deuses é 
um homem indigno. 0 mesmo pode ser verdade em relação a 
um povo. 

Quando um homem adora vários deuses isso significa que 
nenhum deles o satisfaz. .4 idolatria (a tentativa da representação de 
Deus em vários deuses) é um descrédito lançado à onipotência de 
Deus. Se o Deus que adoramos é supremo e nos satisfaz, não ne- 
cessitamos de outro. Porém, se o nosso deus é pequeno e fraco, é 
preciso valer-se de muitos. Um sério problema que decorre dessa 
orientação é o de saber quantos deuses são precisos. 

Nossa vida não pode subsistir sem um principio de integração. 
Para mantê-la e destiná-la a um fim qualquer é imprescindível que 
haja um principio de integração. 0 principio de integração pode ser 
qualquer um. Mas é certo que a natureza dêsse principio determina o 
destino de nossa vida. Se o Deus que Jesus nos revelou se tornar o 
principio integrador de nossa vida, podemos confiar no futuro. E 
no presente também. Eis ai uma importante consequência dêsse pos- 
tulado do Decálogo. Ninguém confia em um homem que adora a 
muitos deuses. Tal homem apresenta-se com uma lealdade dividida. 
Ninguém é capaz de determinar a que deus êle é leal em dado 
momento. 

Êsse postulado determina outras importantes consequências. 
A consciência de um Deus único e exclusivo cria a unidade da 
família, da sociedade, e do próprio universo. A unidade do homem 
decorre da unidade do seu Criador. .4 unidade do universo decorre 
do mesmo postulado. Deus é o princípio da unidade universal. Um 
mundo unido, fraternal, pacifico, só é possível com fundamento nesse 
postulado do Decálogo. 

Ninguém pode servir u dois senhores e manter a unidade da 
vida. .4 humanidade não pode manter-se unida e em paz se muitos 
dens°s lhe disputam a lealdade. 


14 — 


Ú N I T A S 


“Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do 
que há cm cima nos céus nem em baixo na terra, nem nas águas 
debaixo da terra. Não tc encurvarás a elas nem as servirás; 
porque eu sou Deus zeloso, o Senhor teu Deus, que visito a mal- 
dade dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração daqueles 
que me aborrecem, e faço misericórdia em milhares aos que me 
amam e guardam os meus mandamentos” (20:4, 5, 6). 


O segundo mandamento preceitua a espiritualidade de Deus. 
E proibe, consequentemente, tôda tentativa de materialização da 
vida espiritual. Os antigos hebreus foram os primeiros a conceber 
Deus como Ser espiritual, irredutível à materialidade. A superio- 
ridade dos hebreus sôbre os demais povos é digna de nota. Já ao 
tempo de Moisés — dois mil anos A.C. — tiveram èles uma visão 
bem clara da espiritualidade do culto. Êsse mandamento especifica a 
natureza do culto que se deve prestar a Deus, bem como instrui 
sôbre o tipo de relações que a criatura deve manter com o Criador. 
O culto deve ser espiritual, interior, autêntico, e as relações são de 
ordem pessoal. E verdade que os hebreus criaram uma forma de 
culto cerimonial para a adoração coletiva. Um dos elementos des- 
tacados do culto era a Arca do Concêrto, conservado no lugar 
Santíssimo no qual só penetrava o sumo-sacerdote para oficiar pelo 
povo todo. Mas a Arca não era objeto de adoração. E há um por- 
menor notável: a arca estava vazia. Nela não depositaram os hebreus 
qualquer figura, imagem ou estatueta que siquer lembrasse a figura 
de Deus. Mas na Arca estavam as tábuas do Decálogo. Estava igual- 
mente depositada a vara de Arão. Esses objetos, longe de ser instru- 
mentos de culto, não representavam a figura da divindade. Eram 
relíquias históricas que assinalavam uma fase brilhante na vida re- 
ligiosa do povo. Mas nem siquer eram / >ostas à vista do povo. 
Estavam depositadas no lugar onde só o sumo-sacerdote entrava uma 
vez por ano. 

A Arca vazia pode ser tomada como expressão de uma rea- 
lidade espiritual básica: uma adoração verdadeira e espiritual de 
Deus reclama a existência de condições humanas decisivas. Uma 
dessas condições é o interior vazio. Sem idolos. Sem faidasias espi- 
rituais. Bem-aventurados os limpos de coração porque êles verão a 
Deus — declarou Jesus no Sermão do Monte , Se o que visamos com 
o exercício espiritual é uma viva compreensão de Deus e do seu 


Outubro de 1958 


— 15 


propósito em relação a nós, então é necessário (pie nosso interior 
esteja destituído de ídolos, desobstruído, limpo e vazio. 

Partidários da exploração do sentimento religioso do povo 
insistem na necessidade de elementos estimulantes capazes de de- 
sencadear, no interior, o dinamismo espiritual. Pretende-se trans- 
formar a motivação espiritual em instrumento de exploração na qual 
não se pode esconder o processo comercializante. Todo dinamismo 
espiritual é, no princípio, precedido por um fator desencadeante. 
Mas o importante é observar que um fator desencadeante não se li- 
mita a dar inicio a um processo. Èle pode determinar a natureza c 
o fim desse processo. O que o gênio hebreu viu, já naquela época, 
alguns psicólogos a serviço de uma falsa espiritualidade, escondem 
dos fiéis. Uma imagem representada pela figura humana, ainda que 
bela e estimulante do ponto de vista artístico, não é só um fator 
desencadeante da vida espiritual. Ela determina a natureza da vida 
espiritual bem como o seu alcance. O que ocorre, frequentemente, c 
que os fiéis, estimulados por processos artísticos “cristianizados" 
criam uma espiritualidade da mesma natureza, isto é, artística e pom- 
posa, mas limitada e vazia de conteúdo espiritual autêntico. E ine- 
vitável que tal dinamismo espiritual não ultrapasse os limites da 
imagem desencadeante. Há as exceções, mas como sempre, para con- 
firmar a regra. Uma vida espiritual autêntica não precisa ter, como 
fatores desencadeantes, senão as experiências da própria vida. “A 
minhalma tem sede de Deus, do Deus vivo”, exclamava o salmista. 
A vida espiritual se torna mais autêntica e dinâmica na proporção em 
que ela deixa de ser o produto forçado de uma estimulação artificial 
para tornar-se a natural consequência de uma necessidade vital. 

A proibição estipulada pelo mandamento era válida, e é válida. 
Proibição para fabricar e adorar imagens. Proibição universal: nem 
imagem do que há no céu, nem na terra, nem nas águas debaixo da 
terra. 0 gênio hebreu já ultrapassara o primitivismo da adoração de 
fenômenos da natureza, da figura humana ou animal, e da figura de 
sêres aquáticos. 

A arte pictórica ou escultural não é boa motivação para a 
vida espiritual, sobretudo para a adoração de Deus. 

“Enquanto tuas mãos e lua cabeça estiverem trabalhando teu 
coração deve descansar em Deus. Deus é espírito. Lembra-te de que 


18 — 


tNITAS 


também és espírito, criado à sua imagem” , escreveu o grande místico 
alemão Boheme. 

A proibição estipulada pelo mandamento è justificada dessa 
forma: “Porque eu sou Deus zeloso, que visito a maldade dos pais nos 
filhos até à terceira e quarta geração dos que me aborrecem, e faço 
misericórdia em milhares aos que me amam e guardam os meus 
mandamentos” . A materialização de Deus, seja em forma idolátrica 
ou simplesmente artística, representa sempre uma corrupção de con- 
sequências danosas para gerações. 

A corrupção apresenta-se em dois sentidos. Primeiro, em re- 
lação à pessoa individual. A materialização do culto nunca pode ser 
tomada pelo próprio culto. 0 culto espiritual revela-se em formas 
objetivas, mas estas não podem confundir-se com aquêle. Um culto 
materializado corrompe porque, além de não expressar fielmente a 
realidade espiritual, não a pode produzir. Não é possível que o ma- 
terial produza o espiritual, ou que o exterior produza o interior. 0 
material pode condicionar o espiritual. Dai a importância que se 
deve dar a êsse mandamento. Devemos criar condições propícias ao 
desencadeamento do dinamismo espiritual. Em segundo lugar a ma- 
terialização do culto produz uma divisão na sociedade. Cada um. ou 
cada grupo, ou cada povo, se julga de posse do verdadeiro culto. 
Aparecem várias formas de idolatria cada qual se atribuindo a 
exclusividade da representação de Deus. Essas formas variadas de 
culto estratificam-se nos grupos sociais e provocam conflitos. As 
guerras provocadas por crenças religiosas são as mais cruéis. De- 
senvolve-se, rapidamente, o espírito de intolerância, que é preci- 
samente o oposto do autêntico sentimento religioso. 

O derradeiro reduto da natureza humana é o sentimento re- 
ligioso. Quando êste se corrompe nada mais resta. Um culto ma- 
terializado traz sempre a marca da própria natureza humana 
corrompida. Ora, o que se pretende com a vida espiritual é trans- 
formar a natureza humana. E ocorre que uma geração transmite à 
outra sua concepção de Deus. Dai a advertência contida no 
mandamento. 

Deus fala a cada criatura. As relações entre Deus e a criatura 
são pessoais e diretas. Ele è como um pai. Ele ê justo na distribuição 
dos bens a cada filho, mas a natureza das relações é estritamente 
pessoal. De resto, ninguém pode reproduzir uma imagem de Deus que 
satisfaça a todos. 


Outubro de 1958 


— 17 


“Nâo tomarás o noinr do Senhor teu Deus em váo; porque o Senhor 
nfio terá por inocente o que tomar o seu nome em váo” (20:7). 


O terceiro mandamento preceitua a reverência no uso do nome 
de Deus. Tomar o nome de Deus em vão significa usá-la levia- 
namente. Ou — o que é pior — usá-lo criminosamente para garantir 
ou acobertar uma situação insustentável. 

O nome é uma parte inseparável, inalienável, da pessoa e do 
caráter. Minguem pode usar o nome de outrem, sobretudo se êle é 
um bom nome, sem sua expressa permissão. Tanto quanto nos é 
dado admitir, Deus não empresta seu nome a ninguém nem passa 
procuração para ninguém. . . O uso leviano do nome de Deus produz 
uma atitude de leviandade em face da vida. Pessoas que frequente- 
mente pronunciam o nome de Deus são pessoas pouco sérias. E a 
exploração do nome de Deus é um processo de que se utilizam os 
que pretendem garantir e acobertar uma situação indefensável. O 
mentiroso, o desonesto, o falso, frequentemente usam o nome de 
Deus para garantir sua palavra, seus negócios ou seus compromissos. 
O que pretendem com o uso do nome de Deus é apenas causar 
impressão. Em tais casos funciona um mecanismo psicológico muito 
claro: a inexistência de valor pessoal exige a utilização de um valor 
fora da pessoa. Há pessoas que se utilizam, indevidamente, do nome 
honrado e reconhecido de outras. Mas algumas pessoas excessiva- 
mente corrompidas e sem nenhum caráter, vão adiante: usam logo o 
nome de Deus na suposição de que isso produza grande impressão. 

O mandamento proibe o uso de fórmulas mágicas ou ca- 
balísticas com a intenção de impressionar. A vida religiosa presta-se 
a essa forma de exploração. A vida religiosa está intimamente 
associada à vida moral. Se ela não transforma a vida moral ela só 
pode ser falsa. 

Decorre dêsse mandamento a condenação do perjúrio, ou ju- 
ramento falso. Quem invoca o nome de Deus para garantia de sua 
palavra não tem convicção. O juramento é falso quando êle precisa 
de garantias fora da própria pessoa. Jesus advertiu: seja o vosso 
falar sim, sim, e não, não; o que passa disso é falso. 

Uma atitude de reverência para com as experiências da vida 
decorre, naturalmente, da observância dêsse mandamento. 


18 — 


ÚNITAS 


“Lembra-te do dia do sábado para o santificar. Seis dias trabalharás 
e farás tôda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor 
teu Deus: não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem 
tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, 
nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas. Porque 
em seis dias fêz o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que 
nêles há, e ao sétimo dia descançou; portanto, abençoou o 
Senhor o dia do sábado e o santificou” (20:8-11). 


O quarto mandamento contém prescrições bem especificas 
sôbre o dia do descanso. Ê admirável que o Decálogo tenha incluído 
èsse problema da organização social entre os seus postulados. Embo- 
ra se encontre uma divisão do tempo entre os primitivos, a instituição 
de um dia com êsse caráter sagrado, é exclusivamente hebreu. 

O sábado judaico sempre foi um dia de descanso e recordação. 
Nele se recordavam os antigos hebreus de que a criação fôra rea- 
lizada por Deus. Tôda vêz que o homem se recorda de que êle mesmo 
é uma criação de Deus, passa a considerar sua existência com vistas 
a essa origem. Inevitavelmente, isso reveste a vida de seriedade e 
santidade. A vida vale pouco, ou vale nada, se não a atribuirmos a 
Deus. Em cada período da existência é preciso cessar tôdas as ati- 
vidades materiais e entregar-se à reflexão sôbre a origem da vida em 
Deus. Sobretudo os cristãos devem fazer do domingo um dia de re- 
flexão sôbre a nova criação de Deus em Jesus Cristo. A conversão 
produz uma nova criação. O cristão foi criado de novo em Jesus 
Cristo. O domingo é o dia em que êle se entrega ú meditação sôbre 
essa experiência para fortalecê-la e renová-la. 

O sábado dos hebreus era também um dia de gratidão. Nêle 
os hebreus se recordavam da libertação do jugo dos egípcios. De 
igual modo, nós cristãos devemos fazer do domingo um dia de gra- 
tidão a Deus pela libertação do jugo do pecado. Nós fomos arranca- 
dos, à fôrça da graça divina, da escravidão do pecado para a li- 
berdade. Nunca nos devemos esquecer dêsse fato. Para comemorá-lo 
instituímos o domingo. Santificamo-lo. Os hebreus santificaram o 
sábado porque nele Deus concluira tôda a obra da criação. Nós 
santificamos o domingo porque nele Cristo concluiu tôda a obra da 
nova criação. Foi no domingo que Jesus ressurgiu. 

Aí estão as razões históricas e religiosas por que devemos 
fazer do domingo o dia da meditação sôbre a origem da vida, de 


Outubro de 1958 


— 19 


júbilo 'pela libertação do pecado e de glória u Deus pela realização de 
sua obra redentora. Mas há oalras razões. 

Há razões de natureza pessoal. 

O homem tem um corpo que obedece a leis naturais. Uma 
dessas leis ê a do descanso. Xa organização da sociedade o domingo 
exerce a função dessa lei. Tendo tido Deus por seu criador, a vida 
física também se reveste de valor excepcional. O cristianismo ensina 
que o nosso corpo é a morada do Espírito Santo. 

Além disso, o homem tem uma mente que precisa revigorar-se 
ao contato com pensamentos puros e elevados. A vida religiosa é u 
fonte dêsses pensamentos. A mudança de preocupações que o do- 
mingo propicia desempenha a função não só de higiene mental mas 
de verdadeira renovação mental. Um menino pediu que o pai o le- 
vasse ao jardim zoológico, de que era administrador, para ver os 
animais. “Xão precisa ir lá”, objetou o pai. “ Olhe para mim e veja 
que não sou muito diferente dos animais com os quais lido”. Ani- 
mais não precisam de descanso mental. Mas o homem precisa, por- 
que êle é diferente dos animais. 

O homem tem alma. Ela precisa de alimento próprio para 
subsistir e fortalecer-se. Desgastamos nossos recursos espirituais du- 
rante a semana. Ê de tôda conveniência que revigoremos nossas 
almas em um dia especial. 

Quando santificamos o domingo santificamos todos os outros 
dias. A'osso povo é fraco moral e espiritualmente. Uma das causas 
dessa situação é o desrespeito pela lei divina do descanso e da 
adoração. A vida vale pouco, a moral não resiste às tentações, e o 
espírito è anêmico e sub-nutrido, sujeito a várias enfermidades. 
Xossos avós referiam-se ao “sábado”. Nossos pais falavam no “do- 
mingo”. E nós nos referimos ao “week-end” . O domingo perdeu seu 
sentido em nossa civilização. Foi substituído pelos passeios, pelos 
esportes, e por tôda sorte de corrupção moral: nos cinemas, teatros 
e lupanares. Caminhamos para a desgraça total inevitável. Lincoln 
dizia que, guardando o domingo conservamos a última esperança da 
humanidade. Desrespeitando-o perdemos essa esperança. Voltaire, 
no sen desespero de lutar para a destruição do cristianismo, disse: 
“Xão há esperança de destruir o cristianismo enquanto o domingo 
for reconhecido e guardado como dia sagrado”. Milhares de cristãos 
(ou falsos cristãos!) estão ajudando Voltaire a destruir o cristianismo 
e a destruir as últimas esperanças da civilização. Ê difícil fazer que 
os cristãos voltem atrás agora. 0 melhor é esperar que êles retro- 
cedam depois da desgraça total... se puderem retroceder. 


A BÍBLIA 
E A 

CRIANÇA 


G. Campbeix Morgan 


(Transcrito da revista “Biblos”) 


Temos ai reunidas em uma só frase 
dois vocábulos repletos cada qual dc 
fascinação: Bíblia e Criança. 

John Ruskin afirmou que as ca- 
racterísticas da meninice são: humani- 
dade, fé, caridade e exuberância. Pois 
são ésses mesmos os grandes temas dc 
que trata a Bíblia. Ela interpreta a hu- 
manidade, c a consciência dc seu con- 
teúdo está expressa na trilogia : fé, 

amor e esperança. Ver-se-á Imediata- 
mente que as idéias sugeridas por essa 
tríade são idênticas às contidas na frase 
de Ruskin a respeito da criança: fé, 
caridade, exuberância, uma vez que êle 
emprega caridade no sentido exato de 
amor, e que a exuberância é a expe- 
riência resultante da esperança. Pôsto 
que a Bíblia trata dc tAdas, ela o faz do 
principio no fim na sua relação com 
Deus. É assim evidente u intima re- 
lação entre u Bíblia e a Criança; po- 


deriamos, portanto, aceitar sem mais 
argumentos que o ensino da Riblla à 
criança é de importância suprema. 

Para quem toma essa posiçõo, é por 
sl só evidente. Contudo, e uma vez que 
todo o pensamento hodierno sofre em 
maior ou menor medida a influência do 
espirito da época, interessndo como 
está, filosòficamente falando, no auto- 
desenvolvimento do homem indepen- 
dentemente da revelação divina, será de 
bom arbítrio reconsiderarmos alguns 
fatos elementares e elementals. É a isso 
que nos propomos no presente estudo. 
Pá-lo-cmos procurando responder a 
duas perguntas muito simples porém 
inclusivas : 

Por que devemos ensinar a Riblla à 
criança? 

De que modo deve ser feito ésse 
trabalho? 


Outubro de 1958 


— 21 


POR QUE DEVEMOS ENSINAR A 
JtlBLIA A CRIANÇA? 


A resposta cabal c completa a essa 
questão encontra-sc nas palavras que 
Paulo escreveu a Timóteo (II Tim. 
3:15). Na carta foram acidentais, po- 
rém nem por isso menos completas ou 
finais na sua revelação. Contêm elas 
uma filosofia inteira de instrução re- 
ligiosa, tanto no que respeita ao germe 
como à norma. A filosofia está aqui 
em germe, o que quer dizer que de- 
pende de desenvolvimento e aplicação a 
fim de satisfazer as exigências de cada 
época, e é capaz de tal desenvolvimento 
e aplicação. Está igualmente aqui a 
filosofia como norma, o que quer dizer 
que permanece como regra ou padrão 
pelo qual deverá ser testado e corrigido 
todo desenvolvimento e aplicação. 

Empreguei propositadamente a pa- 
lavra instrução de preferência a 
educação. Nessa escolha reconheço o fa- 
tor distintivo da religião bíblica, ou 
seja, que ela apresenta Deus que se 
aproxima do homem, e, portanto, antes 
uma implantação do que um desenvol- 
vimento. Revelação pressupõe capacida- 
de receptiva, porém pressupõe também 
ignorância. A capacidade para religião 
é inala em cada ser humano, porém 
exige iluminação e energia de fora para 
que se possa realizar. É nesta altura 
que muito do pensamento hodierno dis- 
cordará de mim, e por isso faço logo a 
declaração, pois que tudo que pretendo 
dizer e, ainda, tudo que é sugerido pela 
passagem em foco, depende da acei- 
tação dêsse modo de encarar a vida 
humana. 

Para entendermos a palavra apos- 
tólica, precisamos recordar certos fatos 
a respeito da pessoa a quem foi diri- 
gida. Nesta carta, em lauce anterior, 
Paulo chamara Timóteo “meu amado 
filho” e, na sua carta anterior, “meu 


verdadeiro filho na fé”. Conforinr sa- 
bemos pelo livro dos Atos, Timóteo era 
filho de casamento misto: sua mãe era 
uma judiu de nome Eunicc, e a mãe 
desta, Lóide, era da mesma fé. Seu 
pai, porém, era grego. É evidente por- 
tanto que a instrução religiosa de 
Timóteo estivera a cargo de sua mãe e 
também sob a Influência de sua avó. 
Paulo se refere à “fé sem fingimento 
que primeiramente habitava em tua avó 
Lóide, e em tua mãe Eunice”. Quando, 
nas palavras que estamos cousiderando, 
o apóstolo admoestou Timóteo a per- 
manecer nas coisas que aprendera e das 
quais fôra assegurado, acrescentando: 
“sabendo de quem as aprendeste, e que 
desde a infância sabes as sagradas le- 
tras,” — êle se referia indubitavelmente 
ao ensino que o menino recebera da 
mãe. Parece quase certo que Timóteo 
foi conduzido a Cristo durante aquèle 
periodo atribulado do ministério de 
Paulo em Antioquia, Icónio, Listra e 
Derbe: não há afirmação histórica nesse 
sentido, porém a narrativa da ocasião 
em que Paulo levou Timóteo a viajar 
com êle nos induz a essa conclusão. 

Trata-se evidentemente, pois, de um 
menino ensinado quando pequeno nas 
verdades da religião hebraica, de modo 
tal que, chegado Paulo o grande hebreu 
demonstrando como essas verdades ti- 
veram sua realização em Cristo, êle se 
tornou cristão. Agora, decorridos anos, 
êste mesmo Timóteo é encontrado no 
pleno ministério de Cristo — em Éfeso 
por ocasião da primeira carta, e pro- 
vàvelmente ainda quando lhe chega às 
mãos a segunda. Paulo pois o está 
admoestando a ser fiel àquele ensino 
de infância, e, assim fazendo, revela-lhe 
o valor e, de passagem porém positi- 
vamente, o valor da literatura que lhe 
era fundamental. 


22 


Mais uma vez, antes de focalizarmos 
a atenção sòbre as palavras, observemos 
como, no parágrafo que vai desde o 
versículo 14 até o 17, a Literatura 
Biblia é colocada ao lado da perso- 
nalidade em seu desenvolvimento: co- 
meça com a criança, c termina com o 
“homem completo”, c mais: completa- 
mente equipado para o trabalho. 

A Literatura é descrita nu frase “sa- 
gradas letras” — hiera granimalu 
— (letras sagradas ou santas), sendo 
empregado o vocábulo “letras” indu- 
bitavelmente no sentido de literatura. 
O que 1’aulo queria significar por 
“sagradas letras”, êle o revela mais 
adiante quando assim as define: “tôda 
escrita inspirada por Deus”. Ligado a 
essa definição êle declara o valor de 
tal escrita. É quádruplo. Fornece en- 
sino — e o têrmo indica ensino auto- 
rizado que pode ser aceito como ver- 
dadeiro e sòbre o qual se pode edificar. 
Fornece arguição — e o têrmo nada tem 
a ver com repreensão, porém se refere a 
um método pelo qual pode ser provado 
aquilo que é edificado sòbre o ensino. 
Fornece correção: se a arguição revelar 
alguma coisa em dcsacòrdo com o en- 
sino, demonstra como pode ser acer- 
tado aquilo que está assim fora do 
prumo. Fornece disciplina na justiça, 
ou seja, tudo que é necessário para 
prosseguir na obra de desenvolvimento. 

E tudo isto até que o homem de Deus 
se complete, tornando-se perfeitamente 
habilitado para tôda boa obra. 

Voltemo-nos agora para considerar as 
próprias palavras que possuem êsse 
valor, e, fazendo-o, para buscar a so- 
lução da questão de como devemos en- 
sinar a Biblia à criança. Três pontos 
se salientam c podem ser assim 
resumidos : 

1) O alvo ou objetivo do en- 
sino da Biblia é n salvação. 

2) O caminho pura a experiência 


ÚNITAS 

da salvação é “pela fé em Cristo 
Jesus”. 

•1) A condição mental necessária 
paia o exercício dessa fé é o re- 
cebimento do conhecimento ou da 
sabedoria que se encontra dentro 
das “sagradas letras”. 

Antes de considerarmos êsses pontos 
com mais pormenores, devemos dizer 
que, embora a referência apostólica 
fôsse indubitavelmente à literatura he- 
braica, podemos aplicá-la a tòda a 
Bíblia conforme a possuímos agora, e 
isso porque tòdas as estradas do Velho 
Testamento conduzem à revelação do 
Novo. Na conhecida frase de Agostinho, 
Cristo está “latente no Velho c patente 
no Novo Testamento”. Assim, a partir 
dêste ponto cm nossas considerações, as 
“sagradas letras”, as “escrituras inspi- 
radas por Deus”, são concebidas como 
a Bíblia, conforme nós a conhecemos. 

Claramente, o conceito apostólico do 
pleno valor do ensino das “sagradas 
letras” é o da salvação do ensinado. 
O propósito, pois, do ensino da Bíblia á 
juventude é a salvação. Quando fa- 
lamos em salvação, é da máxima im- 
portância que pensemos com grandeza 
e não com mesquinhez. A salvação é 
uma experiência grandiosa e poderosa. 

O Novo Testamento revela-a como cen- 
tral no cristianismo. De fato, o ensino 
de Cristo é claríssimo, que, caso exista 
quem não necessite da salvação, fele na- 
da tem a dizer-lhes. "Não vim chamar 
os justos mas sim os pecadores”. 

Salvação, pois, postula perigo e 
promete segurança. Implica franqueza 
e oferece fôrça. Enfrenta fracasso c 
nbre caminho de recuperação e reali- 
zação. Reconhece as fôrças que são des- 
trutivas e anuncia um raminho de 
vitória sôbre elas. 

A salvnção, no tempo, é progressiva; 
na extensão, inclusiva; no valor, 
suprema. 


Outubro de 1958 


— 23 


É progressiva. A salvação tem tem- 
pos: passado, presente progressivo, c 
futuro. É possível referir-se a pessoa à 
salvação como alguma coisa que se deu 
c dizer: Fui salvo ali e naquela ocasião. 
K necessário podermos dizer que esta- 
mos sendo salvos, em um processo de 
salvação. Há também um sentido em 
que por hoje a experiência é inacabada, 
de modo que achamos o tempo futuro: 
“A nossa salvação está agora mais per- 
to do que quando no principio cremos”. 

A salvação é inclusiva. Há um sen- 
tido em que a frase “salvação de 
almas” pode causar mal-entendido. De 
qualquer modo não é expressão bíblica. 
Não é incorreta, desde que a palavra 
alma seja usada para significar a per- 
sonalidade na sua integra. Muitas vêzcs 
porém se emprega como se dissesse 
respeito somente ao lado espiritual da 
natureza humana. A análise de per- 
sonalidade que Paulo usa na carta aos 
Tessalonicenses é vital : êle ora por 
aqueles cristãos, para que seu “espírito, 
alma e corpo” fossem conservados de 
todo irrepreensíveis. Aí o espirito se 
refere ao ser essencial, a alma repre- 
senta a apreensão mental e o corpo 
naturalmente a habitação temporária 
da pessoa. Jesus Cristo não veio ao 
mundo para salvar espíritos, ou para 
salvar almas, ou para salvar corpos, 
considerados isoladamente. Sua sal- 
vação tem que ver com espírito, mente 
e corpo. Sem dúvida alguma ela co- 
meça com o fato central, o espírito, 
porém na sua operação prossegue à 
transformação da mente, e atingirá sua 
glória final quando o Salvador trans- 
formar o nosso corpo de humilhação 
para ser igual ao corpo da sua glória. 
Interpretações acanhadas da salvação 
são perigosas sempre, e nunca em me- 
dida maior do que quando estamos pen- 
sando na criança. 

Devemos lembrar-nos sempre de que 
a criança está no mundo, não por sua 
própria vontade ou decisão, e que, aqui 


estando, acha-se no meio de forças que 
são destrutivas de suas mais elevadas 
possibilidades. Ademais, e seja qual 
for a terminologia teológica que em- 
preguemos, ela é consciente de ten- 
dências interiores que são igualmcntc 
destrutivas. 

São ésses os fatos que constituem a 
necessidade de salvação. É, pois, paru 
possibilitar a cada criança a posse da 
salvação que lhe ensinamos a Bíblia. 

Pode ser uma pergunta chocante, 
porém de grande importância, que de- 
vemos dirigir a nós mesmos quando 
estamos ensinando a Bíblia às crianças: 
por que o fazemos? qual o nosso alvo? 
que fito temos em vista? c qual a 
paixão dominante que nos inspira 
nessa obra? Se a resposta for nebulosa, 
ou menos sublime do que êsse pro- 
pósito revelado, então, para não dizer 
pior, não compreendemos o serviço que 
nos está afeto. 

Nesta altura creio que seja oportuna 
uma palavra dc aviso. Não estou pre- 
tendendo sugerir que, ao ensinar a 
Bíblia, devemos começar perguntando à 
criança: Você está salva? ou, Deseja 
ser salva? Sem qualquer intenção de 
crítica censória, sou forçado a confessar 
que tenho minhas dúvidas do trabalho 
entre crianças quando se envereda por 
êsse caminho. Sem dúvida, momentos 
poderão chegar em que tais perguntas 
sejam perfeitamente pertinentes e apro- 
priadas. Nossa primeira obrigação, 
porém, é a de cuidar em que a criança 
tenha sua oportunidade para escolha 
individual na presença da grande 
possibilidade da salvação; e essa opor- 
tunidade somente pode ocorrer à me- 
dida que ela esteja de posse da ver- 
dade sòbre o assunto. Essa verdade é 
contida nas “Sagradas Letras”. 

Isso nos leva ao segundo ponto sa- 
liente: a salvação vem unicamente pela 
fé em Cristo Jesus, o que o apóstolo 
torna perfeitamente claro pela sua ex- 
pressão: “a salvação pela fé em Cristo 


24 — 


ÚNITAS 


Jesus”. Evidentemente o apóstolo pre- 
sume que as “santas letras” conduzem 
a Cristo. Isso êle descobrira como re- 
sultado de sua apreensão na estrada 
para Damasco. Até então êle possuira 
as “santas letras” de seu povo, e nelas 
fôra instruído filosófica e teologica- 
mente, aos pés de Gamaliel. Quando, na 
sua própria expressão, Paulo foi 
“apreendido” no caminho de Damasco, 
verificou primeiro que o Jesus que êle 
imaginava jazia morto em um túmulo 
na Judéia, estava vivo; novamente ein 
suas próprias palavras, Jesus para êle 
foi “declarado Filho de Deus com po- 
der pela ressurreição dentre os mortos”. 

De tão revolucionária que lhe foi essa 
revelação, que levou Paulo para a 
Arábia, onde ficou dois anos, talvez 
três, sem dúvida ocupado na recon- 
sideração de tudo que tinha, à luz 
daquilo que acabava de descobrir. Ve- 
rificou, não que o Velho Testamento 
fôsse obsoleto, porém que fôra cumpri- 
do na pessoa de Jesus ressurreto; que 
tôdas as estradas reais da Lei, dos 
Profetas e dos Escritos tiveram por fim 
conduzir a Cristo. Por êsse motivo diz 
a Timóteo: "Desde a infância sabes” 
estas “santas letras”, c que “podem 
tornar-te sábio para a salvação pela 
fé em Cristo Jesus”. O alvo das 
“santas letras” é o Cristo. Para nós 
evidentemente o Novo Testamento está 
inclufdo, pois é êle especlficamente a 
literatura do Cristo, que cumpriu tôda 
a expectativa revelada no Velho 
Testamento. 

Ora, o caminho para se entrar nessa 
salvação é o da fé no Cristo que assim 
se revela. Nesta altura devemos fazer 
uma pauso. Alguém poderá perguntar: 
Então a salvação é questão de crença? 
A resposta é, que depende inteiramen- 
te do que se quer dizer por crença. Sc 
crença é mera convicção intelectunl, 
então jornais levou e nunca poderá le- 
var uma alma ú experiência da sal- 
vação. Podemos formular uma defi- 


nição prática da fé nestes têrmos: é 
entrega volitiva a uma convicção inte- 
lectual. Posso estar convencido de que 
Jesus é o Filho de Deus c o Salvador do 
mundo, sem contudo entrar na expr- 
riência da salvação. Quando porém cu 
cedo a essa convicção, tomando a ati- 
tude que com ela condiz: entrego-me a 
Cristo, confio nele, aventuro a minha 
alma nas mãos dêle, — então estou 
exercendo a fé que salva. 

Aqui por mais uma vez se torna ne- 
cessária uma palavra de cautela pon- 
derada- Se tal fé é uma necessidade 
fundamental, não nos esqueçamos de 
que ela poderá apresentar muitos méto- 
dos secundários de ação e de mani- 
festação. Poderemos cometer um êrro 
terrivcl se procurarmos obrigar as 
crianças a determinado método se- 
cundário que porventura tenha ca- 
racterizado a nossa própria entrada 
nessa experiência. Há, por exemplo, de- 
zenas de milhares de pessoas, no dia 
de hoje, que se lembram com nitidez o 
próprio lugar e momento em que exer- 
ceram a fé. A decisão veio transfor- 
mar-lhes a vida, mudando seu curso 
c sua direção, c a experiência foi 
vulcânica na sua erupção e influência. 
Ilustrarei pcssoalmente o assunto di- 
zendo que não possuo semelhante re- 
cordação. Ao declarar isso, não estou 
me desculpando, porém antes glorian- 
do-me — não em mim mesmo, mas 
grato a Deus pelo lar em que nasci c 
pelo ensino que recebi. Pois também 
posso dizer que desde a Infância fo- 
ram-me ensinadas as “santas letras”. 
Não há a menor dúvida de que, nalgu- 
ma altura do desenvolvimento da minha 
individualidade, houve o momento em 
que fiz a minha própria entrega vo- 
lltiva ás verdades que assim aprendera, 
concernentes a Cristo. Não me lembro 
quando se deu. 

A única certeza é de que a relação 
com Cristo não pode ser estabelecida a 
não ser pelo ato voluntário do indi- 


Outubro de 1958 


— 25 


viduo. Èsse ato pode ocorrer de várias 
maneiras. Tenho conhecido pessoalmen- 
te muitos jovens que entraram em uma 
real experiência da fé cristã através do 
oficio de profissão de fé, na Igreja 
Episcopal. Posso imaginar que alguém 
dirá que estou pregando a salvação pela 
profissão de fé. Absolutamente. Nem 
tampouco prego a salvação pelo ato de 
“ir à frente”, levantar a mão ou 
assinar uma ficha. Qualquer desses 
métodos pode ser perfeitamente correto, 
porém o que é vital — e volto a usar 
minha fórmula — é a entrega volitiva a 
uma convicção intelectual. 

É com o fito de trazer a criança a 
um ponto onde isso seja possível, que 
lhe ensinamos a Biblia. 

Chegamos então ao último e, em cer- 
to sentido, o ponto de vital importância 
nestas considerações. Nas “santas le- 
tras” é que Cristo nos é apresentado, e 
é sòmente ali que o encontramos, 
ftle não se descobre através das 
especulações de almas sinceras a seu 
respeito. Positivamente Êle não é en- 
contrado, primeiramente, naquela ne- 
bulosidade que chamam de experiência. 
Cristo entrará em nossa experiência, 
porém será o inicio dela. 0 Cristo que 
salva é o Cristo revelado nas “san- 
tas letras”. 

É êsse, sem a menor dúvida, o sen- 
tido da afirmação do apóstolo, de que 
elas “tornam sábio para a salvação”. 
Sem faltar com a reverência, posso di- 
zer que a essência do pensamento se 
encontra numa expressão da giria 
americana que fiquei conhecendo. Há 
alguns anos, por ocasião do grande 
surto de negócios na Flórida, um senhor 
perguntou-me se já estivera lá. Ciente 
de que eu não estivera, ofereceu-me seu 


cartão comercial e me disse: “Se esti- 
ver em ir, não deixe de me procurar 
primeiro, que poderei pul yon wise 
(torná-lo sábio) para certas coisas”. 
Talvez seja perigoso eu imaginar que 
entendo as subtilezas do idioma 
americano, porém creio que não estou 
muito errado afirmando que o que êle 
queria dizer, em outras palavras, era 
isto: êle poderia fornecer-me infor- 

mações que, uma vez que cu me orien- 
tasse de acôrdo com elas, me seriam 
vantajosas. 

Pois é exatamente isso que Paulo quer 
dizer: as “santas letras” fornecem in- 
formações que, se os homens agirem de 
acôrdo com elas, lhes serão vantajosas. 
A informação é a verdade a respeito 
de Cristo. Essa informação não salva, 
porém sem ela não pode haver a res- 
pectiva entrega. Daí a plena e vital 
importância de se ensinar a Biblia à 
criança. A responsabilidade daqueles 
que têm crianças a seu cargo é a de 
lhes tornar conhecidas essas “santas 
letras” — e nunca é cedo para iniciar. 
Não é obra final, porém é fundamen- 
tal: não pode compelir a fé, porém 
pode a ela impelir. 

Tôda a infância de hoje é um apêlo à 
Igreja de Deus para que lhe comunique 
essa sabedoria. Não estou dizendo que 
é um apêlo consciente por parte da 
infância, porém das próprias ne- 
cessidades da sua natureza. A maior 
tragédia da hora é que, em inúmeros 
casos, mesmo por parte de pessoas que 
por suposto fazem trabalho cristão, 
essa obra mais vital de tôdas está sendo 
em grande parte negligenciada, ou fei- 
ta de tal modo que não alcança 
resultados. 


REAFIRMAÇÃO 

DO 

PACIFISMO CRISTÃO 


Roland Bainton 


Na atual situação do mundo a “sabedoria dos gregos” deve 
ser suficiente para nos salvar da destruição atômica. Mas 
os cristãos estão obrigados a seguir uma sabedoria mais 
elevada, qualquer que seja o preço 


É estranho que não-cristãos 
através dos séculos têm conside- 
rado o cristianismo pacifista. No 
segundo século o pagão Celsus 
declarava que se todos fôssem 
cristãos o império seria suplan- 
tado pelos bárbaros. No século 4 
Juliano, o Apóstata, perguntava 
aos homens de Alexandria se a 
cidade se tornara grande por 
causa dos preceitos do Galileu ou 
por causa das proesas do seu fun- 
dador, Alexandre o Grande. No 
Renascimento Niccolo Machia- 
velli atribuía a fraqueza do seu 


tempo à “nossa religião”. No 
século 19 Friedrich Nietzche 
pensava que o moto do cristia- 
nismo deveria ser: “Hoc signo 
vinces” — fracasso. Em nosso 
tempo, Alfred Loisy, havendo 
repudiado o cristianismo, inter- 
pretava sua ética em termos 
tolstonianos. E recentemente o 
rabino Klausner afirmou que a 
ética de Jesus destrói o Estado. 
É de admirar como êsses in- 
crédulos chegaram a tais con- 
clusões, pois o comportamento 
dos cristãos desde Constantino 


Outubro de 1958 


nunca cleu margem para tal. Te- 
riam êsses infiéis lido os Evan- 
gelhos sem supervisão? 

Se a inferência dessa questão 
provar que êles estão certos, res- 
ta perguntar se infiéis são me- 
lhores exegetas. É de supor que 

Começando com 

Êsse ponto de vista tem sido 
sustentado não só pelos não-cris- 
tãos como também por cristãos 
em constante sucessão. Até a 
época de Constantino a igreja era 
pacifista neste sentido: nenhum 
cristão de renome perdoava a 
participação na guerra. A maior 
concessão que um dos pais da 
igreja fêz foi admitir que um 
cristão permanecesse no exército, 
sob a condição de não matar; Êle 
nunca seria chamado a matar se 
ficasse estacionado no interior 
do império onde o exército de- 
sempenhava o papel de fôrça de 
polícia. Ao tempo de Constan- 
tino, quando os cristãos come- 
çaram a crescer em número, os 
pacifistas se tornaram minoria. 

E minoria têm sido até aqui, 
embora sejam uma minoria con- 
sistente e contundente. Na Idade 
Média, os monges primeiro, e as 
seitas depois, conservaram o 
ideal pacifista. Desde a Reforma 
tem havido um bom número de 
grupos pacifistas - — Menonitas, 
Huterianos, Socinianos, Quakers, 
e Irmãos. 

A apreciação dos não-cristãos e 
o testemunho dos cristãos de- 


o sejam quando se trata de ética, 
porque, tendo rejeitado a ética, 
êles estão em melhores condições 
de conservá-la intacta do que 
aqueles que, estando presos a 
ela, encontram-se sempre sob 
a tentação de pô-la em nível 
inaccessível. 

Constantino 

vem merecer de nossa parte um 
estudo cuidadoso das implicações 
da ética cristã. Não nos detere- 
mos no exame dos textos e dos 
argumentos sôbre essa velha 
questão. É melhor trazer logo a 
nossa presente situação à barra 
da ética cristã. Os “realistas” 
devem ser realistas quanto às 
nossas presentes dificuldades e 
quanto às implicações dos nossos 
procedimentos atuais. A guerra 
assumiu novas dimensões. Não é 
mais cruel do que quando os 
assírios romperam o curral e se 
espalharam por tôda a parte, ma- 
tando, pilhando, esfolando e fa- 
zendo escravos. Uma rápida 
destruição atômica seria pre- 
ferível. Mas as dimensões da 
guerra moderna são globais, e as 
conseqüências não podem ser 
medidas em termos de uma ge- 
ração, pois o efeito de uma 
guerra atômica talvez torne os 
sêres vivos sobreviventes inca- 
pazes de transmitir a vida. 

Muitos, inclusive teólogos cris- 
tãos, não vêm outra possibilidade 
de evitar o desastre senão pela 
manutenção de uma balança de 


28 — 


ÚNITAS 


.1 balança do terror 


terror. Deixam-se guiar pela 
máxima dos antigos romanos: 
“Se queres a paz, prepara-te pa- 
ra a guerra”. Estão dizendo ago- 
ra que, pela primeira vêz na 
história, o terror das armas se 
tornou um dissuasor da guerra. 
Se, pois, queremos a paz, deve- 
mos estar tão preparados para a 
guerra como os nossos inimigos. 

O que isso significa para todos 
nós o realista deve compreender. 
Dois terços da arrecadação na- 
cional empregamos nas despesas 
bélicas — do passado, do presen- 
te, e do futuro, frias ou quentes. 
(O autor refere-se ao orçamento 
norte-americano). Nossos jovens 
são retirados da fazenda, da 
fábrica e do escritório, por dois 
anos, e postos nas barracas onde 
são amoldados. O pêso de uma 
taxação intolerável não pode ser 
relaxado. 

Não nos devemos esquecer de 
que a balança do terror não é 
estática. Cada parte está pro- 
curando desequilibrar a balança 
para o seu lado. Por isso, nossos 
melhores cérebros têm que de- 
dicar-se à invenção de novos e 
mais mortíferos instrumentos, e 
á criação de uma defesa para 


êles. Todos os especialistas afir- 
mam que não é possível deter 
um ataque atômico. Durante a 
última guerra 95% das bombas 
lançadas sôbre a Inglaterra fo- 
ram interceptadas, mas 5% por 
cento atingiu o alvo — e cinco 
por cento de bombas atômicas 
pode pulverizar a ilha. Na 
próxima guerra os teleguiados, 
voando a elevadas altitudes e 
em velocidades incríveis, podem 
burlar a interceptação. 

A única possibilidade de de- 
fesa é diminuir o perigo de mor- 
te do ataque. Uma possibilidade 
é a evacuação das cidades, mas 
só em alguns casos isso é pra- 
ticável. A alternativa que resta é 
o refúgio dos subterrâneos. Nas 
cidades uma pessoa deve estar a 
3 minutos de distância do abrigo, 
e no campo, a 15 minutos. Faz 
pouco tempo a revista Life pu- 
blicou um artigo ilustrado com 
os desenhos de um abrigo pré-fa- 
bricado para ser posto no fundo 
do quintal. Esses abrigos têm 
duas saidas: uma na superfície e 
outra subterrânea, à semelhança 
dos coelhos, há um milhão de 
anos. Os moradores eventuais 
dêsses abrigos poderão orar 
assim : 


Deus do coelho e da toupeira 

Nós te agradecemos essa caverna de plástico 

Onde. fugitivos dos raios cósmicos. 

Passamos, amontoados, os feriados. 

Quando floresce o açafrão, alegre de esperança 
Nós o vemos através do periscópio. 


Outubro de 1958 


— 29 


Se por esses meios pudermos 
interceptar o ataque atômico, o 
inimigo lançará mão de outros 
recursos. Pois, balançar a ba- 
lança significa nada menos que 
uma franca alternância entre 
ofensiva e defensiva, e vice-ver- 
sa. Quando o submarino atômico 
cruzou, com sucesso, a calota po- 
lar, iludindo todos os ouvidos e 
olhos mecânicos da marinha, e 
apareceu no porto de Boston 
(donde uma arma nuclear po- 
deria lançar projétil para atingir 
um ponto a 3.200 quilômetros em 
terra), especialistas começaram a 
dizer que devemos agora inven- 
tar um processo para encurralar 
o submarino atômico. Na ver- 
dade, tudo quanto inventarmos 
será logo duplicado pelo inimigo 
e usado contra nós, c simultânea- 
mente devemos criar uma arma 
de ataque e logo o meio de inter- 
ceptá-la. Mas essa proteção estará 


logo nas mãos do inimigo e nossa 
arma se tornará obsoleta, e nós 
teremos que procurar outra mais 
aperfeiçoada. Se a guerra atômi- 
ca fòsse eliminada dessa forma, 
ela seria substituída pela guerra 
bacteriológica, e nós teríamos 
que sair das nossas cavernas e 
munir-nos de agulhas hipo- 
dérmicas. Precisaríamos imuni- 
zar também nossos estoques de 
viveres bem como nossos campos 
de plantações. Se nisso fôssemos 
bem sucedidos, então reviveria o 
processo do gás mortífero c 
nós reverteríamos ao estágio cm 
que os homens andavam com 
antolhos. 

Saibam os realistas que, se 
prosseguirmos nessa direção, ca- 
minharemos, se não para a 
extinção completa das espécies, 
pelo menos para arruinar com- 
plctamcnte a vida. 


() mais grave 


Contudo, ainda não levantamos 
as questões mais graves. O que 
se disse até aqui mostra apenas 
a inconveniência à qual seriamos 
forçados a submeter-nos. Muito 
mais perturbador, do ponto de 
vista cristão, é o deveremos fa- 
zer aos nossos inimigos. Se a ba- 
lança de terror é um dique á 
guerra, é-o apenas porque esta- 
mos querendo lutar. Isso signi- 
fica que se a Rússia lançar um 
ataque atômico de surpresa e ma- 


tar um milhão de pessoas nos 
Estados Unidos em uma noite, 
nós deveremos revidar por meio 
de bombardeiros que operam 
por controle remoto e que le- 
vam cargas nucleares. Deveremos 
também ter pronta uma equipe 
de submarinos atômicos sob a 
calota polar e que ràpidamentc 
possam emergir no mar Báltico e 
lançar sua carga letal no interior 
da Rússia. Depois do sacrifício 
de um milhão de americanos nós 


0 — 


Ú N I T A S 


deveremos destruir cem mi- 
lhões de russos numa ação de 
represália. 

Pode isso ser descrito como 
atitude cristã? “Minha é a vin- 
gança, eu retribuirei”, diz o 
Senhor. Mas se alguém cita um 
texto é logo acusado de legalis- 
mo. É curioso que o apóstolo 
Paulo, o mais anti-legalista dos 
escritores do Novo Testamento, 
citaria êsse texto do Velho Tes- 
tamento, e de modo a deixar cla- 
ro que era isso o que êle entendia 
por atitude cristã. Se banirmos 
os textos, que restarão das ati- 
tudes? O mesmo apóstolo enu- 
merou, como fruto do espírito, o 
seguinte: “Amor, gôso, paz, lon- 
ganimidade, bondade, fé, mansi- 
dão, temperança” (Gálatas 5:22, 
23). Êle não teria siqucr consi- 
derado a represália maciça. 

Mas essas virtudes são par- 
ticulares e não públicas, di- 
zem-nos. (Incidentalmente, foi 
isso exatamente o que disse 
Machiavelli). Lembremo-nos de 

As questões 

Se se põe de lado a possibili- 
dade do aniquilamento de cem 
milhões como represália, de na- 
da vale jogar com a política 
internacional, com os argumen- 
tos de um ataque atômico. De- 
veremos, então, suspender nosso 
programa atômico. 

Alguns pensam que poderiamos 
lutar em guerras limitadas. Mas 


que o apóstolo disse que os po- 
deres que existem foram orde- 
nados por Deus e não trazem a 
espada sem razão, e existem para 
proteger o bem e punir o mal. E 
carregar a espada sem razão não 
é não resistência, nem bondade, 
nem mansidão. Mesmo o exer- 
cício da fôrça policial requer 
que essas virtudes pacíficas se- 
jam consideradas como atitudes e 
não como atos. Mas, na situação 
em que nos defrontamos com 
a represália massiça, poderão 
aquelas virtudes sobreviver mes- 
mo como atitudes. Podemos amar 
um criminoso ao mesmo tempo 
em que lhe impedimos a prática 
do crime. Mas aniquilar cem 
milhões de pessoas em represália 
ao aniquilamento de um milhão 
de pessoas já mortas e sem 
possibilidades de restauração, é 
algo dificil de enquadrar-se com 
o amor, a longanimidade, a bon- 
dade, e mesmo com a tempe- 
rança. Essa casuística sublime 
nem siquer foi tentada por 
Machiavelli. 

dos realistas 

isso é problemático porque uma 
guerra limitada estaria dentro do 
âmbito de uma guerra ilimitada. 

Que ocorreria se suspendêsse- 
mos nosso programa atômico? 
Eis o problema que os realistas 
poem diante dos pacifistas. Pro- 
blema que os pacifistas não 
podem resolver. Uma possível 
ocorrência é que os russos nos 


Outubro de 1958 


— 31 


imitem. Mas ninguém pode 
assegurar que êles procederão 
dessa forma. Tal experiência ja- 
mais foi feita. Teria efeitos 
espantosos. Presumivelmente não 
há poder na fraqueza, mas há 
fôrça moral na renúncia vo- 
luntária da fôrça. Se nós de- 
cidíssemos abandonar nosso pro- 
grama de armamento os russos 
abandonariam também o seu. 

Mas, por outro lado, isso pode 
não ocorrer. Êles poderão rir-se 
de nossa decadência e dominar o 
mundo. Isso não seria nada de 
desejar mas confessemos que se- 
ria preferível a uma terceira 
guerra. Falei a pessoas na 
Alemanha ocidental que pensam 

Ambigiíidaá 


assim. Não estariam dispostos a 
suportar outra guerra para re- 
conquistar a zona oriental. E 
alguns, se os russos dominassem 
o ocidente alemão, permanece- 
riam em suas casas em lugar de 
fugir. Um dos meus amigos, que 
tinha dinheiro bastante para 
comprar uma casa ou um auto- 
móvel e fugir precipitadamente 
(pois reside na zona fronteiriça), 
preferiu comprar uma casa. Não 
seria fácil a um cristão viver sob 
o domínio russo; mas não seria 
impossível. E, em lugar de trei- 
nar-nos para a guerra, deve- 
riamos disciplinar-nos a fim de 
resistir à tirania por dentro. 
inevitáveis 


Contudo, o aspecto mais grave 
de tudo isso é que o impacto da 
opressão não recairia logo sôbre 
os Estados Unidos. Nós estamos 
muito distantes para ser as pri- 
meiras vítimas dos russos. Não 
seríamos facilmente subjugados. 
A Europa ocidental e a Inglaterra 
sofreriam primeiro. Isso nos dei- 
xa em um terrível dilema, e os 
não pacifistas acusam os pacifis- 
tas porque êstes não podem esca- 
par às ambigüidades morais. 

Êsse dilema impede que nossa 
política seja feita em bases estri- 
tamente cristãs. 0 pacifismo não 


é uma estratégia política. Ne- 
nhuma nação jamais o adotou 
como estratégia, e tudo indica 
que nenhuma o adotará. As 
próprias igrejas cristãs não o re- 
comendariam. O pacifismo ao 
tempo do grande poder dos 
Estados Unidos e da Inglaterra 
— no período entre as duas gran- 
des guerras — não foi suficiente 
para evitar a segunda guerra. Se 
não era forte naquele tempo, é 
certo que não o é agora. A espe- 
rança de que um maior número 
de pacifistas poderá evitar uma 
guerra é insensata. 


Um testemunho, não uma 
estratégia 

O pacifismo é um testemunho, munho, mas não é uma estratégia, 

um valioso e necessário teste- Se uma terceira guerra tiver que 


32 — 


t N I T A S 


ser evitada, não o será por causa 
dos pacifistas mas por causa 
dos não-pacifistas pacificadores. 
Dêsses há muitos e seus braços 
devem ser sustentados e forta- 
lecidos. Até mesmo os nossos 
chefes militares não querem a 
guerra. Se êles seguirem uma 
politica liberal, ainda que não 
cristã completamente . a guerra 
poderá ser evitada. Nesse sen- 
tido, basta a sabedoria dos 
gregos, mesmo que não invoque- 
mos o amor, a mansidão e a com- 
paixão de Cristo. Na verdade, a 
ética seguida pelas igrejas a res- 
peito da guerra e da paz, desde 
Constantino, tem sido mais grega 
do que cristã. A ética da guerra 
tem sido a da guerra justa, idéia 
tomada por empréstimo dqs 
gregos via Cicero; e a ética da 
paz tem sido fundada na crença 


estoica de que existe uma razão 
divina implantada no homem, e 
que o eleva acima do bruto, fa- 
zendo dêle um ser racional ca- 
paz de estabelecer a concórdia, 
a harmonia, a magnanimidade 
e a paz. 

Há os que escarnecem êsse no- 
bre ideal, pondo-lhe o rótulo de 
“utopismo”. Alega-se que uma 
era de paz nunca existiu. E é 
verdade. Mas é verdade que tem 
havido períodos históricos mais 
humanos e pacíficos do que o 
nosso. Nos séculos 13, 15, e 18, 
por exemplo, a guerra era um 
esporte de gentelmen. Os exérci- 
tos levavam seus próprios supri- 
mentos, e os generais tudo faziam 
para evitar batalhas e os estadis- 
tas não desprezavam as possibi- 
lidades de paz. 


A melhor parte 


Se nossos estadistas hoje pro- 
curassem estabelecer a paz, não 
permitindo que tal iniciativa 
fôsse deixada aos inimigos; se 
todos nos interessássemos pelo 
estabelecimento de um governo 
mundial; se ajudássemos os po- 
vos subdesenvolvidos mais do 
que temos feito; e se melho- 
rássemos o padrão de vida moral 
do nosso país — se fizéssemos 
tudo isso, haveriamos de vencer 
os inimigos, não pela represália 
maciça mas pela reconciliação. 
Para tanto, não precisamos ser 
cristãos. Basta-nos a sabedoria 


dos gregos. Se apenas fôssemos 
bons pagãos haveriamos de 
sobreviver. 

Mas voltemos ao cristianismo, 
e lembremo-nos de que sobre- 
viver não é o principal objetivo 
do homem. O cristianismo tem 
sido chamado pelos seus críticos 
de o culto da morte. Certamente, 
êle não é o culto da vida a qual- 
quer preço. Os realistas nos di- 
zem que se não estivermos fortes 
ficaremos em posição desvanta- 
josa. Sem dúvida. Quando foi 
que os escrupulosos não estive- 


Outubro do 1958 


— 33 


ram em posição desvantajosa em 
relação aos inescrupulosos? 

Mas devem os escrupulosos 
tornar-se inescrupulosos só para 
sobreviver? Os antigos pagãos 
não teriam pensado que sim. Não 
foi Sócrates quem disse que é 


melhor sofrer a injustiça do 
que inflingí-la? Permitiremos que 
um pagão pratique as virtudes 
cristãs, que nos distinguem, en- 
quanto nós invocamos a Cristo 
para justificar o aniquilamento 
nuclear? 


N. da R. — Pedimos ao leitor 
que releia êsse artigo do grande 
escritor Bainton. O problema 
que ele aborda corajosamente, c 
de impressionante atualidade. 
Nunca, como hoje, a ética cristã 
foi desafiada a proferir seu ve- 
redito sôbre o problema da 
guerra e da paz. Teólogos e fi- 
lósofos evangélicos limitam-se a 
tomar uma das duas clássicas 
posições: a realista ou a paci- 
fista. Parece que Bainton co- 
meçou a desvendar o mistério da 
posição cristã face ao problema. 
A posição idealista é, via de re- 
gra, ditada por um forte senti- 
mentalismo. Seria a solução 
ideal. Ah! se os povos pudessem 
desarmar-se! Mas o problema é 
nosso, cristão só. Pagãos e ateus 
não o têm. Enquanto nós discuti- 
mos sôbre a possibilidade de 
estabelecer-se uma paz duradou- 
ra, os comunistas se preparam 
febrilmente para a conquista do 
mundo. Desde a última guerra 
que êles se vêm preparando. São 
hoje a mais terrível potência mi- 
litar. Poderes destruidores nas 
mãos de assassinos, homens sem 
Deus, sem sentimento e domina- 
dos pela sede do poder. Não é 
fácil ser cristão, sobretudo nu- 
ma época como a nossa. Mas é 
preciso ser cristão. A nosso ver, 
a questão mais difícil não está 
em saber-se se eu devo ou não 


usar a fôrça para defender-me. 
O aspecto gravíssimo dessa ques- 
tão está em saber-se se eu devo 
cruzar os braços, esconder a fa- 
ce, enquanto o meu vizinho está 
sendo assaltado por facínoras 
que o querem roubar e matar. 
Pensamos que a ética cristã nos 
manda proteger e defender os 
fracos, os injustiçados e despro- 
tegidos. Por outro lado, a corrida 
armamentista só conduz à guerra. 
.\rmas não servem para brincar. 
Qílc cíevémos fazer em face da 
agressão permanente dos comu- 
nistas? Êles estão usando a 
política da fôrça. Só podem usar 
essa política. Devemos ir ceden- 
do, entregando países e povos ao 
seu domínio? Foi essa a política 
adotada com Hitler. E finalmen- 
te não pudemos evitar a guerra. 
Fomos obrigados a aceitá-la e em 
condições desfavoráveis. A si- 
tuação com a ditadura comunista 
é a mesma. Ou melhor: é pior. 
Que devemos fazer? 

Na verdade já estamos fazendo 
alguma coisa. Oramos, pregamos 
e mostramos ao mundo o plano 
de Deus. Mas é só? Ou devemos 
fazer nossa voz ouvida no plano 
da política internacional? Que 
tem o cristianismo que ver com 
êsses problemas? Nada? 

0 assunto está na ordem do 
dia. O mundo espera a palavra 
final dos discípulos de Jesus. 


34 — 


t N I T A S 


Nós afirmamos que Cristo é a 
única esperança do mundo. É 
preciso explicar isso ao povo e 
traduzir essa esperança em ter- 
mos da política internacional. Aí 
está o problema para os que pen- 
sam: Convidamos os professores 


de ética, de filosofia, de teologia 
das nossas Faculdades de Teo- 
logia a opinarem sôbre êsse gra- 
ve problema. É preciso coragem, 
reconhecemos. Mas é para uma 
hora como essa que nós somos 
cristãos. 


PROPORÇÕES 

Quão pobre, quão mesquinho é o objetivo 
do pequeno disco de um foguete 
Quando as alturas do céu podem ser escaladas 
Pelas orações do homem! 

Leslie S. Clark 

oOo 


SENSO DE JUSTIÇA 

Um dos grandes adversários de Simão Bolivar era o 
comandante Rodil, defensor de Callao. Quando o general 
Salom irritou-se com a resistência tenaz daquele adversário e 
escreveu uma carta a Bolivar fazendo planos de represália 
contra Rodil, o libertador respondeu: 

— O heroísmo não merece castigo. Quanto não ha- 
veriamos de aplaudir Rodil se èle estivesse ao nosso lado. 
É a generosidade eme fica bem ao vencedor. (Wolfram 
Dietrich — “Simão Bolivar”, pág. 199). 

oOo 


RIDÍCULA E PERIGOSA 

O escritor Akeley conta que um rapaz depois de ter 
visto o companheiro devorado por um crocodilo insistiu em 
nadar no rio em que se dera tal desastre. Akeley criticou 
severamente o procedimento do rapaz que representava uma 
loucura. O jovem não mostrou nenhum ressentimento c per- 
manecia sorridente ouvindo a censura. Para explicar sua 
suposta segurança mostrou orgulhosamente um dos seus fei- 
tiches: era um pequenino chifre de antílope que o feiticeiro 
da tribo lhe dera. Calmamente o môço afirmou que con- 
duzindo aquêle objeto sagrado nenhum crocodilo ousa- 
ria feri-lo. 

Infelizmente não é êsse o único caso em que a crença 
do homem se firma em pura ignorância. ( Ligou — 'l he 
Psychology of Christian Personality”, pág. 219), 


FACETAS 

DA 

VIDA 


0 PODER DA REFLEXÃO 


Outro dia alguns homens de 
alta representação na República 
se mimosearam com uma troca 
de correspondência vasada no 
estilo mais violento e em termos 
os mais ofensivos possíveis. Num 
caso, eram adversários políticos, 
noutro eram correligionários. 

É necessário muito domínio 
próprio, quando temos de reba- 
ter qualquer ofensa, ou encarar 
uma crítica mais ou menos ri- 
gorosa que nos façam. A sabe- 
doria antiga manda contar até 
dez, antes de tomarmos uma ati- 
tude qualquer. Talvez fôsse me- 
lhor contar até cem, conforme o 
nosso temperamento. O que é 
certo é que teremos sempre de 
lamentar um ato nosso intem- 
pestivo, como o emprego de 
expressões que atingem, às vêzes, 


não somente ao ofensor, como a 
terceiros. 

Uma retratação, se bem seja 
sempre uma ação nobre, não dei- 
xa de ser profundamente desa- 
gradável a quem tenha de fazê-la, 
movido pelo sentimento de jus- 
tiça ou pelo arrependimento. 

Entretanto Jesus recomenda: 
“Se trouxeres a tua oferta ao 
altar, e aí te lembrares de que 
teu irmão tem alguma coisa con- 
tra ti, deixa ali diante do altar a 
tua oferta, e vai reconciliar-te 
com teu irmão, primeiro, depois 
vem e apresenta a tua oferta”. 
E o Mestre prossegue fazendo 
sentir as conseqüências pro- 
fundas e extensas de uma 
desinteligência. 

Acontece, porém, que todos so- 
mos muito irrefletidos. Todos se 


36 — 


tNITAS 


julgam capazes de opinar com 
grande rapidez, e é assim que 
ouvimos os mais apressados 
juízos emitidos por quem não 
tem muita autoridade para 
expô-los. 

Em face dos mais intrincados 
problemas, o homem da rua, 
como o homem letrado, o técni- 
co, como o leigo em qualquer 
assunto, em terreno seu próprio 
ou em especialidade de outros, 
todos opinam com liberdade, 
com firmeza e com intransi- 
gência, como se dissessem a 
última palavra. Geralmente quan- 
to mais competente o indivíduo, 
mais cuidadoso c tímido é êle, 
cm face de um problema. 


UMA BOA C 

Boa por que? Poderá haver 
uma consciência má? S. Paulo 
diz que, enquanto perseguidor, 
agiu em boa-consciência. Quer 
isto dizer que o órgão mais de- 
licado que Deus nos deu, para o 
fim de regular as nossas ações 
morais, pode funcionar de modo 
errado, levando-nos a agir com 
impetuosidade, com paixão e ca- 
lor num rumo contrário à von- 
tade de Deus. 

A consciência, contudo, ainda 
é a voz de Deus falando no 
intimo do nosso ser. Não é ela 
apenas o resultado de nossa 
experiência, nem da experiência 
da raça, embora as conquistas do 


O Brasil defronta crises graves 
no terreno político, econômico e 
moral. Os governantes precisam 
ser firmes e cuidadosos nas re- 
soluções a tomar, porque natural- 
mente se vêm aturdidos em meio 
do desencontro de opiniões re- 
fletidas na imprensa e nos de- 
mais meios de comunicação. 
Também os governados ne- 
cessitam ser tolerantes e pa- 
cientes, a fim de não provocarem 
medidas inconvenientes e desas- 
trosas. De parte a parte, mais 
reflexão. 

Precisamos de mais coope- 
ração, do que de opiniões, lem- 
brando-nos sempre de que o 
“sapateiro não deve ir além do 
sapato” . . . 


passado e o exemplo dos nossos 
maiores tenham grande papel na 
nossa conduta moral, na nossa 
integridade e na sabedoria com 
que resolvamos os problemas que 
defrontamos. Na realidade exis- 
te um terreno franco, em que po- 
demos andar, porque as velhas 
gerações já passaram por êle e 
nos deixaram as marcas de sua 
passagem. Entretanto, isto não é 
garantia de uma conduta certa. 
Teremos nós mesmos de avaliar, 
de julgar, de refletir e de re- 
solver á vista de uma boa cons- 
ciência, isto é, da certeza de 
estarmos preferindo o certo ao 
errado. 


Outubro dc 1958 


— 37 


A consciência prejudicada pe- 
lo pecado, como todas as outras 
faculdades da nossa mente, é 
imperfeita e está sujeita a mui- 
tos enganos. Todavia é ela o po- 
der supremo, apesar de falivel. 
É suprema no terreno que lhe é 
próprio e, se a desprezarmos, 
não temos outro tribunal a que 
apelar. Por isso dizia Lutero tre- 
mendo diante dela e dos seus 
inimigos: “Não é coisa justa ir 
contra a consciência”. E não foi. 
Como Lutero, todos os homens 
tementes a Deus resistem em fa- 
vor de uma consciência infor- 
mada pelo Espirito Santo. O 
crente tem esta vantagem sôbre 
os demais: êle tem a corrobo- 
rarão do Espírito que fala no 
seu íntimo. 


O falo de haver opiniões di- 
vergentes, procedimento conde- 
nável sob a alegação dc “uma 
boa consciência”, nem denega 
a existência de tão poderoso 
órgão, nem justifica os atos cri- 
minosos e errados. £ dever de 
todos buscar melhores luzes, exa- 
minar cuidadosamente os con- 
trários, meditar e refletir à vista 
das situações, e só agir tranquila- 
mente quando estiverem conven- 
cidos da verdade. 

Felizmente há um mundo de 
questões pacíficas, de fatos já 
comprovados, de assuntos já re- 
solvidos, os quais nem exigem 
reflexão para que andemos bem. 

Infelizmente muita gente pra- 
tica o erro, não porque ignore a 
verdade, mas porque não ama a 
verdade. 


oOo 


POTKXC1A 1)0 C11ISTIAXISMO COXTEMPORÃXEO 

O cristianismo encontra-se, atualmente, no ponto 
máximo de sua ação nas relações humanas, em que pesem as 
condições de secularismo ateu que prevalecem no Oriente. 
Se é certo que se pode admitir que o mundo se encontra 
agora em uma espécie de “era post-cristã”, também é certo 
que “estamos vivendo agora um dos momentos mais gran- 
diosos da igreja cristã”, pois: 1) O cristianismo acha-se 
espalhado geogràficamente mais do que nunca, e mais do 
que qualquer outra religião no mundo; 2) O cristianismo 
enraizou-se profundamente entre maior número de povos do 
que nunca; 3) Os cristãos tendem mais e mais a unir-se; 
4) A influência de Cristo se estende cada dia mais para 
além dos limites das igrejas, e se faz sentir com uma fôrça 
sem paralelo na história. 

Assim se expressou Kenneth Seolt Latourette, da Yale 
University, considerado o mais destacado historiador ecle- 
siástico do mundo atual. 


LUTAS 

DA ALMA CRENTE 


Odayr Olivetti 


1 . Dois jovens cristãos, 
fiéis ermitãos, 
viviam no êrmo 
fugindo do Inferno. 

Um dia, tentados, 
se vão, fracassados, 
em ânsia real 
por gôzo carnal. 

A noite dedicam 
a coisas que indicam 
impura fraqueza, 
profunda baixeza! 

Regressam depois, 
tristonhos os dois, 
sentindo a amargura 
da amarga aventura. 

5. Um dêles medita: 

“Eu, um erêmita, 
que santo me julgo, 
misturo-me ao vulgo?! 


Que seja eu igual 
a todo mortal 
c revelação 
que mata a ilusão! 

Horrível tristeza 
me tira a beleza 
da vida cristã, 
tão pura, tão sã! 

Vergonha mortal 
me traz êste mal. 

Xão há evitá-lo, 
não há remediá-lo! 

Já tinha vitórias, 
já tinha tais glórias, 
acima de tantos 
mui célebres santos! 

Xão sei o que faço 
com êste fracasso! 
Voltar para a érmida?! 
Tão fraco erêmita?! 

Se a luta vai ser 
eterno sofrer, 
caindo-me e erguendo, 
mau ganho estou 

[ vendo!” 

o move a reverso: 
Impulso perverso 
“Adeus meu rapaz, 
meu alvo está atrás.” 

E foi para a aldeia, 
sua alma bem cheia 
de tristes pecados 
agora afagados! 


Tudo isso, porém, 
o outro também, 
melhor inda, via, 
pensava e sentia. 

Mas não se deteve 
a ver onde esteve, 
lembrando o mau 

[ passo, 

chorando o fracasso. 

Pensando em Deus. Pai. 
a ftle se vai 
contar sua aflição 
em muda oração: 

“ó Pai, eis-me aqui, 
pequei contra Ti, 
indigno sou eu 
de ser filho Teu! 

Em Cristo fiado, 
a Ti venho, ousado, 
orar-Te, Senhor, 
rogar Teu amor. 

Minha alma fenece. 
Senhor, me conheces, 
ó Deus, me abençoa ! 
ó Deus, me perdoa ! 

Ajuda-me, ó Deus, 
a andar para os Céus 
ajuda-me a amar-Tc 
sem nunca olvidar-Te!’ 

A Graça operou, 
a paz lhe voltou, 
e todo contente 
marchou para a frente 


Outubro de 1958 


— 41 


E pòs-se a cantar, 
alegre a louvar 
a graça e o amor 
do seu Redentor. 

ó tu que vacilas, 
ó tu que inda oscilas 
na treva e na luz, 
não longe da Cruz, 

Se queres poder, 
se queres vencer, 
humilha-te e vem, 
Jesus te quer bem! 

Pôrto Alegre, 24-9-58. 


oüo 


A DÔR 

De tôdas as experiências humanas, a dôr fisica é, 
enquanto dura, a mais absorvente; é a única experiência 
humana que, quando chega ao fim, automàticamente con- 
fere uma forma real, embora talvez não muito alta, de 
bem-estar. É também a única experiência, do lado de cá da 
morte, solitária por sua natureza. Mas o mais estranho da 
dôr é que, apesar de sua incomparável fôrça, sôbre a mente 
e o corpo, quando passa não podemos lembrar-nos dela 
realmente. O amor, o ódio e o mèdo, a fome e a sede, o 
triunfo e a derrota - — tudo isso podemos, até certo ponto, 
reviver. Mas a dôr, mais viva e mais irresistível na hora do 
que qualquer dêles, não deixa para trás nada de sua rea- 
lidade; lembramos o cenário — o quarto ou a tenda, um 
rosto, um cheiro ou um ruído — mas esquecemos a peça e 
o duro papel que nela representamos. Peter Fleming 


ESTUDO BÍBLICO 


NÃO PERMITA DEUS 


Há uma fórmula característica 
“Não permita Deus!” que ocorre 
quinze vezes no Novo Testamen- 
to, das quais catorze vêzes nas 
epistolas de Paulo. É usada em 
cada ocasião para negar com 
fôrça e indignadamente (até 
mesmo com horror) as deduções 
de uma pergunta que acaba de 
ser feita ou de alguma cousa que 
se acaba de dizer. Realmente, 
“Não permita Deus!” não é bem 
a tradução do original grego; é 
antes uma paráfrase. As palavras 
originais significam simplesmen- 
te “Possa isto não ser assim!”; 
“Não permita Deus” tenciona 
transmitir-nos a fôrça e a in- 
dignação que faltariam na tra- 
dução literal. Alguns tradutores 
modernos vertem assim: “Nun- 
ca!” “Nem por um momento!” 
“De modo nenhum!” “Certamen- 
te não!” “Naturalmente não!” 
c ainda “Absolutamente nada 
disto!” e “Que horrível pen- 
samento!” 


por W. Gordon Rouinson 

A única ocasião em que a 
frase é usada fora das epistolas 
paulinas encontra-se cm Lucas 
20:16. Estava Jesus ensinando a 
parábola dos lavradores máus c 
perguntava o que faria o senhor 
da vinha aos lavradores que ha- 
viam maltratado seus servos e 
assassinado o seu filho bem-ama- 
do. “Virá e os destruirá e dará a 
vinha a outros”, disse o Mestre. 
Os seus ouvintes, horrorizados 
com a dedução de que Deus hos- 
tilizaria aqueles que se rebelaram 
contra êle e retiraria de Israel o 
seu favor, replicaram: “Não 

permita Deus!” Ora pois, essa 
frase é tão típica de Paulo, e de 
Paulo somente, que tem sido su- 
gerido que Paulo estava presente, 
entre a multidão, quando essas 
palavras foram pronunciadas, c 
que foi a sua reação que Lucas 
registrou. 

Paulo usa o seu “Não permita 
Deus” dez vêzes em Romanos, 
uma vez em I Coríntios, e três 


Outubro de 1958 


— 43 


vêzes em Gálatas. É significativo 
que estas três cartas foram escri- 
tas sob pressão c em defesa 
própria e do seu Evangelho. A 
fôrça e o horror indignado de 
Paulo, nessa frase, surgem do fa- 
to de que èle ressente c refuta 
tudo o que desafia a sua certeza 
fundamental. Era a certeza do 
amor de Deus, livre, imerecido, 
não ganho pelo trabalho, gene- 
rosa e graciosamente derramado 
sôbre os homens. Porque Deus 
recomenda seu próprio amor pa- 
ra conosco em que, enquanto era- 
mos ainda pecadores, Cristo 
morreu por nós (Romanos 5:8); 
porque não poupou seu próprio 
filho, mas entregou-o por todos 
nós (Rom. 8:32); e porque o Fi- 
lho de Deus nos amou e se deu 
por nós (Gál. 2:20), Paulo vio- 
lentamente repudia qualquer su- 
gestão que pareça opôr-se a essa 
estupenda verdade. Rejeita com 
indignado horror qualquer de- 
claração que pareça negar tal 
cousa. Reparem nos quatorze 
usos que Paulo faz de “Não 
permita Deus!”, refutando falsas 
conseqüências. 


Mas a que vem a lei? 

A convicção de Paulo a respei- 
to da livre graça de Deus não 
deixava de ser uma descoberta 
assustadora para quem, como 


èle, tinha sido nutrido na Lei 
judaica com a sua assertiva de 
que pela observação da Lei, c so- 
mente dêsse modo, podia alguém 
ser “justificado” perante Deus. 
Antes de sua conversão na estra- 
da de Damasco, Paulo tinha sido 
zeloso em obedecer à Lei e dêsse 
modo glorificar a Deus (Gál. 
1:13, 14; Filip. 3:4-7). Já agora 
èle via que “justificação” ou re- 
tidão diante de Deus não podia 
ser ganha. Era livre dádiva de 
Deus, de que o homem se apro- 
pria pela fé (Romanos 3:19-22). 
Tal conceito vinha determinar- 
lhe algumas difíceis questões 
sôbre a Lei. “Anulamos pois a 
lei pela fé?” (Rom. 3:31). É a 
Lei pecado, agora que os cristãos 
estão libertos das exigências de 
sua obediência? (Rom. 7:7). É 
morte, de vez que a Lei mostra 
que a punição do pecado é a 
morte do pecador e, ao mesmo 
tempo, ela é impotente para res- 
guardar do pecado o homem? 
(Rom. 7:13). É a lei contrária às 
promessas de Deus originària- 
mente feitas a Abraão quatrocen- 
tos e trinta anos antes que a Lei 
fôsse escrita? (Gál. 3:17). A estas 
quatro desanimadoras perguntas 
Paulo responde em cada caso 
“Não permita Deus.” A Lei é boa 
e é parte dos bons planos de Deus 
para os seus filhos. Ela indica a 
maldade do pecado, trazendo aos 
homens a convicção dêsse fato. 
“A lei é santa, e o mandamento 
santo, justo e bom” (Rom. 7:12). 


44 — 


Ú N I T A S 


Contudo, por si mesma, ela é 
não apenas impotente para sal- 
var do pecado; ela na realidade 
provoca o pecado, de modo que 
“o que quero isso não faço, mas 
o que aborreço isso faço” (Rom. 
7:15). “A Graça é algo maior 
que a Lei” e, dêsse modo, “onde 
o pecado abundou, superabundou 
a graça” (Rom. 5:20). 


Para que tanto mais abunde a 
(/raça, continuaremos a viver 
cm pecado? 

Se a graça aflúe em proporção 
da grandeza do pecado, então 
porque não pecarmos ainda 
mais fortemente para assim re- 
cebermos ainda maior graça de 
Deus? Ai temos uma pergunta 
aparentemente lógica a qual 
Paulo repele com o seu “Não 
permita Deus!” “Vamos pecar 
até mais não poder”, pergunta 
êle, “para vermos até aonde 
podemos explorar a graça de 
Deus? Que pensamento pavoro- 
so!” (Rom. 6:2 na tradução de 
J. B. Phillip). Mas essa tentação 
se repete para os cristãos. Paulo 
a enfrenta de novo e responde de 
igual modo mais adiante no mes- 
mo capítulo. “Pecaremos por- 
que não estamos debaixo da lei 
mas debaixo da graça?” “Não 
permita Deus!” (Rom. 6:15). E 
de novo êle refuta tal cousa em 
Gálatas 2:17 (“Ê Cristo ministro 


do pecado?”), e novamente em 
I Cor. 6:15, onde êle se mostra 
atônito diante da conclusão de 
que, sendo a graça de Deus tão 
sem limites, a imoralidade não 
prejudica. “Não permita Deus!” 
diz êle outra vez. A verdade é 
que nós, que morremos para o 
pecado, (na morte de Cristo 
e o que isto custou a Deus!) 
não podemos mais viver nêle 
(Rom. 6:2). 


Podem-se frustrar os planos dc 

Deus? 

Entretanto, o problema do po- 
vo escolhido de Deus continua 
ainda a obsedar a Paulo, êle tão 
orgulhoso de ser judeu. Deus 
chamou a Israel, fêz-lhe as suas 
promessas, confiou-lhe a sua re- 
velação, e contudo esta nação fa- 
lhou por completo em responder 
com a fé à graciosa dádiva de 
Cristo. “A incredulidade anula a 
fidelidade de Deus?” (Rom. 3:3). 
“Rejeitou Deus o seu povo?” 
(Rom. 11:1). Paulo responde, 
como sempre, “Não permita 
Deus!” Os capítulos 9 a 11 de 
Romanos constituem de fato uma 
profunda tentativa para apreen- 
der e chegar a um acordo neste 
doloroso problema da rejeição 
dos judeus. Deus permanece fiel 
mesmo quando todos sejam in- 
crédulos (Rom. 3:3-4). 


Outubro de 1958 


— 45 


/' Deus injusto? 

“É Deus injusto, trazendo ira 
sôbre nós?” (Rom, 3:6). “Há in- 
justiça da parte de Deus (esco- 
lhendo onde e a quem êle quer) ? 
(Romanos 9:14). “Porventura 
tropeçaram para que caíssem 
(isto é, cegou-os Deus para pro- 
vocar-lhes a queda?” (Rom. 
11:11). Paulo refuta de novo o 
argumento com o “Não permita 
Deus” a cada uma destas três 
questões. Êle inicia com o tema 
original do amor, bondoso e li- 
vre de Deus, que é grande além 
da mera justiça e maior do que o 
pecado e o desespero. Êle segu- 
ra-se bem ai. 


Finalmente, os demais usos 
que Paulo faz dessa frase ilus- 
tram os exemplos anteriores. 
“Não permita Deus que eu me 
glorie a não ser na cruz de Cris- 
to” (Gál. 6:14). Exclue-se a van- 
glória (cf. Rom. 3-27) ; vence-se o 
pecado; oferece-sc a plenitude 
da vida; assegura-se a “justi- 
ficação” e o recobro das justas 
relações com Deus. E tudo isto 
acontece, não mediante o que 
podemos fazer, mas tão somente 
mediante o que Deus tem feito. 

(THE CHfUSTIAN WORLD, trad. do 
O. A.) 


INSTITUIÇÃO VITORIOSA 

A Escola Dominical, grande instituição de caráter pu- 
ramente religioso estende-se, presentemente, por todo o 
mundo e sua matricula eleva-se a cerca de 40.000.000. No 
Brasil, onde a 19 de agosto de 1855, ela nascia com apenas 
5 crianças, na cidade de Petrópolis já conta com um rol de 
mais de 700.000 alunos, de ambos os sexos e de tôdas as 
idades — crianças, moços e adultos. Demonstra-se o cres- 
cimento da Escola Dominical em nossa Pátria por esses li- 
geiros dados: 5 alunos em 1855; 72.000, em 1922; 200.000, 
em 1944; 380.000, em 1950; 627.429 em 1955. Entre os anos 
de 1950 e 1955 o crescimento anual em média, é de 49.485. 
Seguindo-se o mesmo ritmo podemos dar para 1957 o total 
de 726.400 matriculados. Nasceu em 1780, na Inglaterra a 
Escola Dominical, entre crianças e adolescentes, por ini- 
ciativa, e operosidade do jornalista Robert Raikes. Em 
menos de dois séculos espalhou-se pelo mundo inteiro, 
atingiu aos milhões! Consolidou-se notadamente nos países 
mais cultos, em cujo destino e formação moral influiu 
sobremaneira. 


AS GORDAS 


E AS MAGRAS, 


Não se trata de regime para emagrecer. A referência é às 
espigas e às vacas. Ambas aparecem no sonho do faraó do Egito, que 
José foi chamado a interpretar: 

“E aconteceu, que ao fim de dois anos inteiros, Faraó 
sonhou e eis que subiam do rio sete vacas formosas à vista e 
gordas de carne, e pastavam no prado. E eis que subiam do 
rio após elas outras sete vacas, feias à vista e magras de carne; 
e paravam junto às outras vacas na praia do rio. E as vacas 
feias à vista, e magrgas de carne, comiam as sete vacas for- 
mosas à vista e gordas. Então acordou Faraó. Depois dormiu 
e sonhou outra vez, e eis que brotavam dum mesmo pé sete 
espigas cheias e boas, e eis que sete espigas miúdas, queimadas 
do vento oriental, brotavam após elas. E as espigas miúdas 
devoraram as sete espigas grandes e cheias. Então acordou 
Faraó, e eis que era um sonho” Gên. 41:1-8. 

As vacas magras devoraram as gordas e as espigas raquíticas 
consumiram as viçosas. Na interpretação de José, os dois sonhos 
significavam sete anos de fartura, seguidos de sete anos de miséria. 

Quer sejam sete, dois, três ou vinte, o fato é que na vida de 
quase todos nós, períodos de miséria sucedem anos de abundância, a 
pobreza devora a riqueza, as forças negativas da oposição continua 
acabam por aniquilar o vigor creativo, o sonho, o idealismo. Quem 
não conhece, entre os de suas próprias relações, o médico que de- 
pois de penosos anos de trabalho foi delicadamente convidado a se 
retirar da administração do hospital porque suas idéias não se en- 
quadravam dentro dos moldes gerais, e acabou procurando ncomo- 


Outubro de lf)58 


— 47 


dar-se a um emprego pi'il*lic*o. de pura rotina; a professôra «pie vinha 
lutando vigorosamente pela implantação de um regime construtivo na 
escolinha perdida no fim do mundo, e por fim tentou convencer-se de 
que é melhor cair na rotina para evitar amolação; o ministro que 
acreditava ter nascido para pastor que por anos alimentou o re- 
banho do Mestre mas cujas exasperantes manobras de conselhos, de 
juntas e de donos de igreja levaram a considerar o ministério 
como ganha-pão? 

Tudo ia bem durante os primeiros anos de luta. A despeito das 
dificuldades, vitórias sucederam vitórias. Os desentendimentos, a 
estreiteza de vistas, as mesquinharias alheias causaram a reviravolta. 
Depois do conflito a aparente derrota, o desânimo, a descrença em 
si mesmo, no triunfo de uma causa incompreendida, a dúvida de que 
há mesmo um Deus interessado nisso tudo e a seguir a rotina, o 
“pouco importa”, e às vêzes até mesmo o cinismo. As vacas magras 
enguliram as gordas e a pasmaceira continua se esforçando por 
tomar conta daquilo que um dia foi um espirito idealista e lutador. 
No sonho, a devoração foi completa, mas na vida há um outro ele- 
mento a ser considerado: vacas magras não podem engulir as gordas. 
Não faz sentido lógico ou biológico. Espigas raquíticas não absor- 
vem o vigor das viçosas para continuarem franzinas. O processo 
é inevitável. 

Os anos de magreza vêm mesmo. Mas, como no caso da pro- 
vidência do Faraó, que acumulou durante a fartura para os anos de 
miséria, os anos de vitória constituem suficientes reservas de con- 
fiança no valor de um ideal para a travessia acidentada dos anos 
de inatividade. 

É a mesma providência que determina uns e outros. Para os 
que confiam em Deus, as próprias forças indiscutivelmente diabólicas 
que os cercam não podem atingir ninguém sem o consentimento do 
Pai. E quando tal acontece, o propósito é divino. Como no caso de 
certos selvagens que sugam o sangue dos inimigos para se apossarem 
de sua fôrça, tôda a perversidade alheia que toca a criatura, com o 
consentimento divino, destina-se a ser absorvida, não como elemento 
destrutivo, mas em forma de poder incalculável. O processo só pode 
resultar em vitórias para aquêles que erêem, que sonham e aspiram 
uma vida melhor para os seus semelhantes. Os anos angustiados que 
se seguem às vitórias, nutrem-se da essência dos primeiros, gravam 
na alma uma experiência indelével de confianca e paz, que não se 
troca por nada nesta vida. 


48 — 


Ú N I T A S 


As energias se restauram e novas forças, das quais não se tinha 
consciência, entram em função. Uma nova etapa se inicia, com 
novos conceitos de valor, de triunfo, de sucesso, e mesmo de fracasso. 


Foram os sete anos de fome, as sete vacas magras, as sete 
espigas franzinas que levaram ao Egito os filhos de Israel, no cumpri- 
mento do pacto de Deus com Abraão. Foram as mesmas sete vacas 
magras e as mesmas sete espigas raquíticas que elevaram José a 
provedor mor do reino e que salvaram os escolhidos de Deus da 
morte pela fome. 

Os anos de miséria são anos de reconsideração, de descanso, 
de reabastecimento, para a nova avançada no caminho, que esta para 
as primeiras vitórias da vida, na mesma proporção que esteve o Egito 
quase desconhecido de antes dos anos de miséria para a posição de 
abastecedor universal que adquiriu depois da fome. Os dolorosos 
sete anos de penúria não são os últimos da vida, nem são 
intermináveis. 

Maria Amélia Rizzo 
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A MARGEM 
DA 

HISTORIA 


SOM DE RELÓGIO 


Existe na Catedral de São Paulo, em Londres, uni grande e 
majestoso relógio. Ao meio dia, quando é grande o barulho do tra- 
balho, quando as carruagens, os ônibus e os automóveis caminham 
pelas ruas com o seu estridor característico, muitas pessoas nunca 
puderam ouvir as badaladas dêsse relógio a não ser que perma- 
necessem muito próximas dela. 

Mas, quando cessa o ruído das máquinas e termina o barulho 
do trabalho — quando os homens se preparam para dormir e o 
silêncio reina em Londres — então às doze, à uma, às duas, às três, 
podem as pancadas dêsse relógio ser ouvidas a milhas de distância. 

Doze! Uma! Duas! Três! 

Como êste relógio é ouvido por muitas pessoas em noites 
de insônia! 

— Este relógio se assemelha à consciência do homem impe- 
nitente. Enquanto êle tem saúde e vigor, e luta entre o turbilhão do 
trabalho e dos prazeres do mundo buscando as pérolas de pequeno 
valor, êle não ouve a voz da consciência — as vozes do mundo 
soam com grande entusiasmo, sufocando-a. 

— Tempo virá, porém, quando as desilusões pesarem sôbi e o 
seu espírito, quando deve retirar-se do mundo, quando repousa sòbre 
o seu leito de dôr e olha a morte bem na face — então, o relógio da 
consciência, êste solene relógio, soará em seus ouvidos com clareza, c 
se êle não se arrepender, trará para a sua alma mais miséria e 
mais infelicidade. 

Assim como o maestro distingue os sons variados dentro da 
melodia que ouve, saibamos distinguir o timbre dêsse característico 
som do correto relógio, solene relógio da consciência. E é de homens 
que saibam ouvir essa voz que o mundo hoje mais do que nun- 
ca necessita! 


50 — 


Ú N I T A S 


MORAL E ARTE 

Quase no fim do século XVIII o pintor inglês Jorge Romney, 
grangeou retumbante fama como retratista. A famosa Lady Hamilton 
é que lhe serviu de modelo para vários quadros que não primam pela 
decência. Entre êsses figuram: Casandra, a bacante; Circe; Sen- 
sibilidade e outros. O modêlo que êle escolheu para todos êles 
impressionava pela beleza. 

Depois de adquirir fama e fortuna, Romney abandonou a mu- 
lher na província. Durante trinta anos, entre os aplausos da multidão 
esqueceu-se de que era casado. No fim, tornou-se gravemente enfêrmo 
e voltou a procurar a esposa que êle havia tratado com tanta indigni- 
dade. Ela não era uma artista, não podia servir de modêlo, não tinha 
grande cultura mas recebeu o marido infiel e tratou dêle carinho- 
samente até que aquela vida gasta em prazeres ilícitos se extinguiu. 
Um grande crítico de arte Fitz Gerald, comentou o fato assim: “A 
ação daquela mulher tem mais belezas do que tôdas as pinturas dei- 
xadas pelo seu ingrato esposo”. 

Há no bem uma fôrça e um prestígio inextinguíveis. Pode 
haver momentos em que pareça que êle não tem prestigio, mas 
correm os anos e as gerações que passam vão sempre reconhecendo 
o valor imperecivel das boas ações. 


CIVILIZAÇÃO E RELIGIÃO 

O historiador Toynbee, o maior de todos os historiadores do 
século vinte, disse que nos últimos (5.000 anos apareceram 21 ci- 
vilizações, e que tôdas elas desapareceram quando o dinheiro, os 
prazeres e a acumulação de bens materiais excluiram a religião c as 
coisas espirituais da vida do povo. Uma civilização secularizada, em 
que não há lugar para Deus, está fatalmente condenada. 


IMPULSOS PARA O BEM 

A tentativa honesta de explicar certos fatos da personalidade 
humana obriga, muitas vêzes, certos psicólogos confcssadamente 
agnósticos a assumirem atitudes que parecem de cristãos. 

Eis um exemplo. As palavras que se seguem foram escritas 
por Jules Payot. Representam elas diretrizes espirituais muito di- 


Outubro de 1958 


— 51 


ferentes daquelas que os cristãos exemplificam. Xo entanto, chegou a 
escrever isto: “Se, durante um passeio, durante uma leitura, se le- 
vanta na consciência um remorso... se nos sentimos tocados da 
graça, se constatamos um bom movimento, é necessário aproveitá-lo 
imediatamente. Não devemos, pois, nunca imitar aqueles que, na 
sexta-feira de manhã, deliberam heroicamente que, a partir de se- 
gunda-feira, se hão-de agarrar ao trabalho: se o não fizeram imedia- 
tamente, a sua pretensa resolução não passa de uma mentira para 
consigo mesmos, de uma impotente veleidade. Como diz Leibnitz 
devemos aproveitar os nossos bons movimentos, “como a voz de Deus 
que nos chama”. Desperdiçar êsses bons movimentos, enganá-los. 
adiando a sua execução para outro dia; não os aproveitar imedia- 
tamente para criar bons hábitos e obrigar a alma a saborear as 
alegrias viris do trabalho, de maneira a conservar-lhe o sabor, é o 
maior crime que se pode fazer contra a educação da energia”. 

O que êsse psicólogo recomenda como recurso para educar a 
vontade é alguma coisa semelhante ao que o apóstolo São Paulo 
ensinou quando disse: “Não extingais o espírito”. É que para êle 
todos êsses impulsos bons que nascem na alma são manifestações do 
Espírito Divino. Obedecê-los é entrar em comunhão com o Infinito. 
Todos quantos põem em prática êsse preceito, entram em expe- 
riências radiosas da vida. Se o nosso ouvinte sente impulsos para 
praticar êste ou aquêle bem, não os despreze e verá logo como é 
sábia essa atitude. 


PROVAÇÕES 

Sendo a resistência do ar o único obstáculo que o pombo 
encontra no seu vôo, se não encontrasse ar no seu caminho, êle po- 
deria voar com maior rapidez e comodidade. Todavia, se lhe ti- 
rássemos o ar e a ave tivesse de voar no vácuo, cairia por terra 
instantaneamente, incapaz de poder bater as azas. Daqui se deduz 
que o mesmo elemento que contraria o vôo da ave é condição indis- 
pensável para que ela possa voar em tôdas as direções. 

O que a resistência do ar representa para o vôo, as provações 
da vida representam para o caráter. Um mundo absolutamente sem 
lutas seria fatal para a formação de um caráter íntegro, 


52 — 


tNITAS 


ERROS 

O homem custa muito a reconhecer os que pratica. Exemplo. 
Km Santa Helena, Napoleão, escreveu uma narrativa da campanha 
de Waterloo, que termina com um catálogo dos dez maiores erros 
cometidos pelos comandantes aliados. Por essa enumeração parece 
que, durante aquela batalha, Napoleão não cometeu êrro algum: só 
lhe faltou ganhar a vitória. E o leitor conclui, muito logicamente, 
que ela pendeu para os aliados por meio de graves violações das 
leis de guerra cometidas por êles! Não é só Napoleão que tenta 
explicar assim tão desastradamente as suas derrotas! 


OS SENTIDOS 

A biografia de Helena Kellcr que, como se sabe, era cega e 
surda, exemplifica maravilhosamente como os outros sentidos que 
lhe restavam tentam suprir a falta dos que estavam inutilizados pela 
moléstia que a acometeu nos primeiros anos de vida. 

Ela conhecia os amigos pelo aperto da mão. distinguindo per- 
feitamente uns dos outros. Referia-se à vibração dos corpos sólidos. 
Embora fôsse completamente surda, maravilhou-se achando-se den- 
tro da Igreja de S. Bartolomeu, quando o órgão começou a tocar. E 
ela estava longe do instrumento. Guiava-se pelo que dizia ser o per- 
fume das casas, distinguindo entre outras a sua própria. Fala muitas 
vezes na beleza das flores que ela só percebia pelo tacto. 

Uma vez, na Escola de Belas Artes de Boston, pôs-se a exa- 
minar um baixo relevo que representava um grupo de dansarinas e 
perguntou: “Onde estão os músicos?” Descobriu, depois que tôdas 
as dansarinas estavam cantando, menos uma. De fato, a gravura a 
representava com os lábios fechados. 

Para ela, há uma memória táctil: lembra-se de impressões que 
a mão de diversas pessoas deixaram na palma de sua própria mão. 


Outubro de 1958 


— 53 


O Ensino da Religião 

Normalmente é nos lares e nos templos que o 
ensino da religião revela tòda a sua eficiência. Os 
cristãos dos primeiros tempos fizeram de seus lares ver- 
dadeiros templos de adoração e conhecimento de Deus. 
Construiram êles um patrimônio moral e espiritual de 
repercussões muito claras e positivas. Os templos 
também primavam pela nota de real espiritualidade. 
Os cultos eram atos simples de fé e sinceridade diane 
de Deus. Mas, como tudo o que é bom. o ensino da 
religião degenerou e perdeu seu lugar. Hoje poucos 
lares transmitem às novas gerações o temor e o conhe- 
cimento de Deus. Os próprios templos nem sempre re- 
presentam bem sua função. Daí a necessidade de levar 
o ensino da religião, em seus elementos fundamentais, a 
tòdas as partes. O ICR tem desenvolvido uma grande 
atividade nesse sentido espccialmente junto às escolas 
públicas. 

Nas páginas a seguir oferecemos aos leitores, para 
estímulo, alguns exemplos fotográficos da grande obra 
que está realizando em Santa Catarina o Rev. Eny Luz 
de Moura. Desde o ano passado que esse eficiente e 
consagrado Ministro vem desenvolvendo intensa ati- 
vidade nesse sentido. Agora seu trabalho tem o pa- 
trocínio da Confederação Evangélica do Brasil. Sua 
influência pessoal, e o ensino do cristianismo que mi- 
nistra, têm produzido notáveis resultados. Suas reuniões 
gerais de culto são assistidas por 350 militares e às 
vêzes mais. 

Pedimos as simpatias e orações dos leitores em 
favor dêsse trabalho. 



Aspectos do trabalho de Capelania Evangélica na Escola de Apren- 
dizes Marinheiros sediada no Estreito, Florianópolis — St. a Catarina 
Re v. Eny Luz de Moura, capelão 




Aspectos do trabalho cie Capelania Evangélica na Escola de Apren- 
dizes Marinheiras sediada no Estreito, Florianópolis — St. a Catarina. 
Rev. Eng Luz de Moura, capelão 


Outubro de 1958 


57 



“Irineu Bornhaiisen” — Estreito, Florianópolis — Santa Catarina. 
Prof. Eny Luz cie Moura, ministro presbiteriano 


Mentalidade Selvagem 


Nas viagens que o famoso Alexandre Von Humboldt fêz, 
observou êle coisas curiosas. Henry Thomas referindo-se a uma 
excursão do cientista ao Rio Negro afirma que êle “encontroa 
um monge cristão com as pernas de tal maneira cobertas de 
picadas de insetos que era impossível determinar a côr primi- 
tiva da pele. Êsse homem de Deus narrou histórias nauseantes 
sôbre os povos vizinhos ,cuja dieta onívora abarcava, não só 
os insetos, mas até a carne humana. Pouco antes da chegada 
de Humboldt, o chefe da tribo engordara sua mulher e assara-a 
para um banquete público”. Um dos tripulantes indígenas da 
canoa de Humboldt, que parecia muito pacifico, declarou que 
também êle era canibal e que o manjar mais delicado para êle 
eram as palmas das mãos humanas. Êsse homem foi imedia- 
tamente dispensado pois não valia a pena viajar com uma pessoa 
dêsse tipo. 

Henry Thomas, autor a que nos estamos reportando con- 
tinua suas narrativas nestes têrmos: “E uma das suas expe- 
riências mais horripilantes foi uma visita aos Otomacs, tribo 
entre as mais selvagens existentes nessa região habitada pelos 
“Filhos do Diabo”. Êsses homens embriagavam-se com um pó 
violento. Aspiravam-no pelo nariz com uma forquilha de pássa- 
ro e lançavam-se às batalhas espirrando, tomados de fúria com- 
bativa. Quando não estavam em guerra com outras tribos, vol- 
tavam a sua fúria para a matança mútua dentro da própria 
tribo. Raramente se valiam de golpes para matar. Limitavam-se 
a embeber as unhas em veneno e dar “ferroadas” nas vitimas.” 

São essas apenas algumas amostras do que foi a mentali- 
dade pagã. Ainda hoje, nas regiões em que foi a mentalidade 
pagã. Ainda hoje, nas regiões em que o evangelho não é co- 
nhecido, praticam-se crimes horripilantes sem que a consciên- 
cia coletiva levante protestos. 





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